terça-feira, 31 de julho de 2012

Codinome Beija-Flor

Sem inspiração para escrever, vamos copiando...
Música linda, significado imenso...
dia ruim.


Codinome Beija-Flor
(Cazuza)
Pra que mentir
Fingir que perdoou
Tentar ficar amigos sem rancor
A emoção acabou
Que coincidência é o amor
A nossa música nunca mais tocou
Pra que usar de tanta educação
Pra destilar terceiras intenções
Desperdiçando o meu mel
Devagarzinho, flor em flor
Entre os meus inimigos, beija-flor
Eu protegi teu nome por amor
Em um codinome, Beija-flor
Não responda nunca, meu amor (nunca)
Pra qualquer um na rua, Beija-flor
Que só eu que podia
Dentro da tua orelha fria
Dizer segredos de liquidificador
Você sonhava acordada
Um jeito de não sentir dor
Prendia o choro e aguava o bom do amor
Prendia o choro e aguava o bom do amor



quinta-feira, 31 de maio de 2012

Família...

Hoje acordei feliz, me sentindo de bem com a vida e principalmente, muito esperançosa de dias melhores. Pretendo tratar melhor os motivos de estar me sentindo tão bem num outro momento.
O que quero compartilhar agora é o texto abaixo, que recebi de uma amiga logo no início do dia.
Prepare-se. É daqueles textos que, se não arrancam lágrimas da gente, nos deixam muito melancólicos, embora felizes.
Espero que você goste e se emocione também!

Trechos do livro"O arroz de Palma" de Francisco Azevedo.

 "Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema...
 ...Não é para qualquer um. Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir...
 ...Mas a vida... sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o  apetite. O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida.

 Fulana sai a mais inteligente de todas. Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade. Sicrano, quem diria?
 Solou, endureceu, murchou antes do tempo. Este é o mais gordo, generoso, farto, abundante. Aquele, que o surpreendeu e foi morar  longe. Ela, a mais apaixonada.
 A outra, a mais consistente...

 ...Já estão aí? Todos? Ótimo. Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados. Logo, logo, você também estará cheirando a alho e cebola. Não se envergonhe de chorar. Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza.

 Primeiro cuidado: temperos exóticos alteram o sabor do parentesco.  Mas, se misturadas com delicadeza, estas especiarias, que quase sempre vêm da África e do Oriente e nos parecem estranhas ao paladar tornam a família muito mais colorida, interessante e saborosa.

 Atenção também com os pesos e as medidas. Uma pitada a mais disso ou  daquilo e, pronto: é um verdadeiro desastre.

 Família é prato extremamente sensível. Tudo tem de ser muito bem  pesado, muito bem medido. Outra coisa: é preciso ter boa mão, ser profissional. Principalmente na hora que se decide meter a colher.  Saber meter a colher é verdadeira arte.

 Uma grande amiga minha desandou a receita de toda a família, só porque meteu a colher na hora errada.  O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita.

 Bobagem. Tudo ilusão. Não existe Família à Oswaldo Aranha; Família à  Rossini, Família à Belle Manière; Família ao Molho Pardo (em que o  sangue é fundamental para o preparo da iguaria).

 Família é afinidade, é à Moda da Casa. E cada casa gosta de preparar a família, a seu jeito.

 Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras apimentadíssimas.  Há também as que não têm gosto de nada, seria assim um tipo de Família Dieta, que você suporta só para manter a linha.

 Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo. Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir.

 Enfim, receita de família não se copia, se inventa.  A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia a dia. A gente cata um registro ali, de alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou no pedaço de papel. Muita coisa se perde na lembrança. Principalmente na cabeça de um velho já meio caduco como eu.

 O que este veterano cozinheiro pode dizer é que, por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer.
 Se puder saborear, saboreie. Não ligue para etiquetas. Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro.
 Aproveite ao máximo, pois - Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete."

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A despedida

Despeço-me da saudade, do desejo e da vontade.
Despeço-me das noites em que acordava de madrugada e não voltava a dormir, lembrando de você .
Dou um "até nunca mais" às doces lembranças e decido que é hora de seguir viagem.
Vagava sozinha entre casais e risos, festas e solidão disfarçada. Não, não quero mais isso.
Quero uma viagem solitária, mas encorajadora. Sem passado, sem planos para o futuro, sem você.
Não quero mais me sentir presa sem de fato estar. Não quero as correntes, os elos de aço nem de pensamentos.
Um sentimento que de tanto se fazer presente, me escravizou. Não, as coisas não têm que ser assim. Não mais. Não neste momento.
Adeus tudo de bom e de mau que me ligou a você. Vou seguir sozinha. E se quiser vir, temo ser muito tarde.
Não há mais o mesmo encanto, a mesma admiração... não existe mais a persistência pra fazer dar certo e o que era bonito ficou feio.
O que poderia ser feliz ficou triste, sem graça, sem vida... virou uma lembrança empoeirada, que não quer ser remexida mais... ou porque dói ou porque não vale a pena.
Sim, de fato aconteceu. Você perdeu.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Acumulando coisas

Sou uma pessoa de hábitos estranhos. Gosto de guardar meus momentos.
Se eu pudesse, teria vários armários, com várias gavetinhas, e em cada uma delas ia guardando tudo que me fosse acontecendo durante os dias, os meses e os anos.
Aí, na hora que a saudade batesse, era só eu abrir a gavetinha da saudade e lá estariam todos os bons momentos guardados.
Noutra hora, precisando me tornar mais sábia, abriria a portinha do conhecimento, e como num catálogo, experiências dos mais variados temas surgiriam.
Tudo seria perfeito... e me conhecendo tão bem, tenho certeza que este seria o cômodo da casa mais explorado.
Gosto das lembranças, gosto da minha memória, me recuso a esquecê-las guardadas em um canto qualquer do passado.
E quando remexemos esse passado, essas lembranças saem da caixinha e nos alegram...
Mas se quisermos colocá-las de volta na roda da vida, elas se perdem... perdem a beleza, a magia... e ficam velhas e empoeiradas.
Sei lá, acho que o passado está para as boas lembranças assim como o presente está para os acontecimentos imediatos... não podemos misturá-los por muito tempo sob pena de fazer morrer o encanto. E assim, depois de breve espiadinha, acho melhor fechar a gaveta e continuar guardando tudo... até outro dia.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Oneomania

Ganhei de aniversário o livro "A arte de ser leve", de Leila Ferreira. Ainda estou lendo e tendo várias idéias que quero debater melhor comigo antes de escrever aqui... mas esse trecho do livro eu achei perfeito para o mundo cada vez mais consumista em que nos encontramos:

"Se o esforço que sou obrigado a despender para ter uma coisa é maior que a satisfação que ela me traz, então não vale a pena. É tudo uma questão de medida, que varia de pessoa para pessoa. Há quem aguente um chefe que chateia o ano todo apenas para poder ir à Europa uma vez por ano. (...) Trabalhar mais horas e passar cada vez menos tempo com os amigos e a família para comprar aquele apartamento de luxo. Deixar-se envenenar por um emprego que nos traz zero de alegria para trocar de carro a cada dois anos. Perder o sono pensando nas dívidas feitas para adquirir aquilo que não era necessário, mas vai proporcionar status. Dependendo da medida de cada um, tudo isso pode aumentar substancialmente o peso que se carrega pela vida afora. em troca de algumas "coisas", corre-se o risco de vender a alma em suaves (ou nem tão suaves) prestações."

segunda-feira, 5 de março de 2012

São as águas de março...

Março começou e com ele a vontade de fazer um apanhado dos meus desejos.
Explico já, é que este mês completo 30 anos de vida. Sim, passarei para o time das balzaquianas, da mulheres interessantes e experientes e blá blá blá...
O fato é que essa idéia ainda não é tranquila no meu dia a dia, muito por conta do que a sociedade me cobra e são essas amarras sociais que me deixam cismada.
Às vezes me sinto como alguém totalmente fora do contexto. Todas as minhas decisões foram e continuam sendo contrárias às regras que parecem virar lei para a maioria.
Desde criança, nunca sonhei com casamento, vestido branco ou príncipe encantado. Sempre gostei do pouco convencional. Desde o sonho de ser cientista, que logo que fui apresentada à química abandonei, até a paixãozinha pelo garoto mais rebelde do colégio.
Não penso em filhos por enquanto. Quero ter a opção, mas para o futuro. Só que faço 30 este ano e as pessoas já me cobram  como se o futuro estivesse tão presente a ponto de dizerem um monte de besteira (tá bom, talvez nem tão besteira). Procuro, procuro e não consigo achar o tal do instinto maternal... isso também acho que vem da infância, quando eu inventava de fazer as bonecas ficarem doentes pra acabar com a brincadeira quando me cansava, o que sempre acontecia uns 30 minutos após a casinha das bonecas ficar pronta.
Também não dirijo. Não gosto, tenho medo, não curto. Isso me faz certa falta, mas nada que não possa ser superado. Fiz uma faculdade da qual descobri só gostar da teoria. Na prática, tenho pavor do direito e dos seus trâmites. Prefiro um bom livro a um bom filme, ou mesmo um programa de TV. Aliás, TV pra mim não é diversão, é falta do que fazer. E sendo assim, não ligo a mínima se o meu aparelho é mega ultrapassado.
E todas essas minhas “manias” são tidas como defeitos graves por todos à minha volta. Críticas e mais críticas por todos os lados.
Não gosto de música sertaneja, não gosto de pagode, não gosto de funk.
Será que sou uma espécie de ET em meio ao mundo globalizado das pessoas felizes, dos casais convencionais com seus bebês chorões e seus programinhas enfadonhos domingo no parque?
Já já começo mais uma etapa. Gostaria de manter a minha autenticidade e não sucumbir à maldita pressão social, mas alguém me convida para um casamento e eu já logo penso que é chato ir nas festas de casamento sem um par... porque “as pessoas” comentam.
Queria descobrir um mundo onde as minhas vontades fossem respeitadas, onde eu fosse forte o suficiente para mostrar que eu posso sim, ser feliz do jeito que eu quiser porque não adianta, sou teimosa demais para aceitar qualquer coisa diferente disso.
Se não posso ter o que eu quero - o que EU julgo melhor pra mim, prefiro não ter.
Simples né?

domingo, 26 de fevereiro de 2012

O Sonho, Clarice Lispector

Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida e nela
só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades
que aparecem em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas
que passam por suas vidas.


Hoje não foi um bom dia... definitivamente.
Mais uma vez a realidade sobrepõe "o sonho".
Não sei mesmo por quanto tempo o sentimento vai se manter vivo.
Cada dia morre um pedacinho do sonho, sufocado pelas imagens do dia a dia...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Pinheirinho

O que normalmente se diz é que brasileiro tem memória curta para casos sociais relevantes.
Eu poderia então justificar o atraso em comentar o tema como um teste à memória dos meus raros prováveis leitores, mas essa não é bem a verdade. Foi preguiça mesmo...
E nesse tempo de preguiça, aproveitei para ler muita coisa, ouvir comentários contrários e uns poucos a favor, pesei todos os argumentos e agora sim, tenho uma opinião a respeito do ocorrido.

Bem diferente do que aprendi sobre o Direito, os fatos ocorridos em São José dos Campos – município com um dos maiores orçamentos “per capita” do Brasil, foram justificados em nome da lei, como se pudéssemos admitir o direito como instrumento para o cometimento de atrocidades.

Vamos aos fatos:
Um terreno foi invadido não permitindo a posse tranquila ao seu titular e portanto, precisa ser desocupado. Sendo assim, as ações de desocupação foram justificadas com base no direito de propriedade.

Parece pacífico, mas se analisarmos com um pouco mais de cuidado, encontraremos previsto constitucionalmente que o direito de propriedade deve atender à sua função social (art.5º, XXIII da CF). Sem esse pressuposto nenhum direito de propriedade poderia ser exercido. Além disso a Constituição Federal ainda garante, a todos os cidadãos, como preceito fundamental, o direito à moradia. E, somente analisando isso, já podemos deduzir que a ocupação, para fins de moradia, de uma terra improdutiva e abandonada, sem uma finalidade social, não é mera invasão. Diante de uma ocupação desta natureza, compete ao proprietário, demonstrar a posse e principalmente, provar a função social desta propriedade. Do contrário, a ocupação pode ser vista como uma desapropriação indireta do imóvel, agindo o particular em substituição ao Estado, que se mostra inerte em duas fases: na não realização de políticas públicas efetivas de construção de moradias dignas para todos e no controle exigente das finalidades sociais das propriedades privadas.

Não havendo essa preocupação do Estado, entendo que o ocorrido não foi mera invasão, mas sim, um ato desorganizado para extrair do Estado a garantia dos preceitos constitucionais do direito à moradia e da função social da propriedade. Diferente do que tentaram justificar, não se tratou de ato de pessoas espertas que quiseram se aproveitar da situação, passando à frente de milhões de brasileiros que também não têm onde morar, pois, como bem disse Ricardo Boechat (http://www.ovale.com.br/ricardo-boechat-exp-e-sua-opini-o-sobre-o-pinheirinho-e-n-o-poupa-ninguem-1.210998) ao comentar o assunto, nenhum esperto tem como projeto de vida morar em um terreno ocupado, em precárias condições habitacionais. Os espertos estão em outros lugares, bem mais confortáveis...

Claro, num ambiente de extrema pobreza, também havia usuário de droga e objetos frutos de furto, mas isso em nada justifica a tamanha crueldade com que foram expulsos. Se formos realistas, drogas podem ser encontradas em qualquer tipo de sociedade e os objetos furtados não representam, por si, identificação de autoria de crime, e mesmo que fosse, a pena aplicada para furto não é a perda do direito à moradia.

Essas pessoas são apenas vítimas da histórica péssima distribuição de renda que reina em nosso país.

O ato de reintegração não poderia jamais ter sido feito de forma a atingir a integridade física das pessoas, mesmo se tratadas juridicamente como invasoras. E mesmo que, justificado pela resistência, houvesse a necessidade de expulsá-las de forma abrupta e violenta como o fizeram, por que fazer isso num domingo à noite, fazendo com que estas deixassem seus documentos e pertences para trás? Fazendo como que fossem separados, numa espécie de “triagem”, sendo obrigados a utilizarem pulseiras com cores diferentes nos abrigos, para que pudessem ser identificadas como moradoras deste abrigo?

Tudo isso para entregar o terreno ao seu proprietário? Uma massa falida?...

Os moradores do Pinheirinhho foram presos sem processo, já que ficaram várias horas impossibilitados de sair do assentamento, foram marcados como se estivessem em um campo de concentração, foram desalojados e conduzidos coercitivamente, a um local inabitável, sem qualquer condição de higiene. Ou seja, foram profundamente agredidos em sua dignidade. E onde estava o Princípio Fundamental da Dignidade da Pessoa Humana??? -Art. 1º, III da CF. Além deste, outros princípios fundamentais foram desrespeitados, como o art.3º e 4º, II da CF, que tratam da construção da sociedade livre, justa e solidária e da prevalência dos direitos humanos.

O caso Pinheirinho foi uma verdadeira barbárie e a nossa sociedade precisa encontrar uma solução que traga, instantaneamente, a credibilidade na eficácia dos preceitos fundamentais da Constituição Federal.

Caso isto não aconteça, corremos o risco de ver ações como estas legitimadas por intermédio de um Direito que tolera atrocidades, como se os autores não fossem responsáveis pelos seus atos, apresentando-se apenas como cumpridores da lei, sem que estas sejam aplicadas de forma consciente e humana. Seremos como escravos dominados pelos seus senhores, que utilizam a legislação vigente conforme seus interesses .

sábado, 28 de janeiro de 2012

Um janeiro quase igual aos outros...

Mal começou, e 2012 já disse a que veio. Não fosse somente a chuva para nos atormentar, os desastres naturais... convivemos ainda neste primeiro mês do ano com um tragédia de proporções e causas ainda inexplicáveis (prefiro pensar assim....).


Sexta-feira pela manhã, ainda abalada pelas notícias da tragédia no centro do Rio (sim, essas notícias me abalam sinceramente), em meio a matérias sensacionalistas de jornais que se dizem preocupados com a informação mas que na verdade não param de especular e espezinhar a dor alheia em busca de audiência, tive acesso ao texto abaixo... e achei de uma inteligência ímpar, e acima de tudo... de muita sensibilidade.


Pois bem, nesta semana em que as idéias me fogem, acho justo divulgá-lo neste espaço como forma de tornar mais abrangente sua temática quase poética, embora triste.


"Peço desculpas se ocupo vosso tempo e o dos leitores com divagações deste provecto e solitário carioca, que vive em sua vetusta morada aos pés da Rua do Jogo da Bola, no castigado centro do Rio de Janeiro.

Contemplando as mazelas que afligem esta urbe moderna, fico saudoso do tempo em que nossos avós, os sinhozinhos e as nhanhãs de outrora, passeavam despreocupados, com seus tílburis, pelas ruas da Corte, sem jamais imaginar que seus descendentes sofreriam com bueiros a explodir, arranha-céus a desmoronar e helicópteros a perturbar seu sono.

Quando falo nisso, meus sobrinhos dizem que estou a romantizar o passado, que a cidade antiga, com suas vielas infectas e suas epidemias de febre amarela, estava longe de ser um paraíso, mas essa nostalgia do que não vivi insiste em habitar minha cachola, talvez perturbada pelo incessante funk que meu jovem vizinho insiste em ensinar para todos os moradores do Morro da Conceição.

De uns tempos para cá, dei para imaginar que as tragédias que se abatem sobre esta cidade são vinganças que o passado fica a engendrar, em represália aos maus-tratos que o progresso causou à memória desta terra.

Assim, passei a ver a tragédia do Bateau Mouche como uma resposta do Deus Netuno aos muitos aterros que avançaram sobre seus domínios. A explosão de um prédio na Praça Tiradentes, como uma retaliação arquitetada por Clio, a musa da História, diante de um contrassenso : como é que a cidade ergue, no meio de uma praça dedicada ao Mártir da Inconfidência, uma estátua de Dom Pedro Primeiro, um neto daquela desassisada rainha que foi a algoz do nosso herói?

Tudo isso me vem à baila quando penso na tragédia mais recente da cidade, que pôs abaixo três prédios da Rua Treze de Maio. A Treze de Maio, que já se chamou Rua da Guarda Velha, porque ali o velho Gomes Freire havia estabelecido um corpo de guarda para conter a algazarra dos escravos que vinham buscar água no Chafariz da Carioca... A Treze de Maio, que já abrigou o Teatro Lírico, onde brilharam Caruso, Sarah Bernhardt e Duse, e onde Toscanini pela primeira vez regeu uma orquestra... A Treze de Maio, que deveria ser tão cara para os jornalistas, pois ali ficava o prédio neogótico da Imprensa Nacional, ali Irineu Marinho fundou O Globo, e Chateaubriand instalou num certo momento seu império.

E não deixa de ser irônico o fato de que um dos edifícios destruídos agora fica na pequena Rua Manuel de Carvalho, cujo nome homenageia um dos mestres da engenharia brasileira, auxiliar de Paulo de Frontin na epopeia de construção da Avenida Central.

Recuo mais no tempo e me recordo que, ocupando o leito da atual Treze de Maio, havia uma lagoa, a de Santo Antônio. E, voltando à conspiratória teoria da Vingança da História, fico a imaginar se não haveria nessa tragédia uma revanche tardia dos sapos da antiga lagoa. Afinal, os sapos, barbudos ou não, podem causar muitos estragos..."

(Por Tertuliano Vahia Monteiro de Sá e Benevides)



Publicado no site www.migalhas.com.br (edição nº2803).

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Entretenimento X Cultura


Essa semana foi difícil chegar até aqui, sentar e escrever... Escrever sobre o quê? Tantas bobagens nos veículos de comunicação, assuntos sérios pouco comentados e a garota Luiza virando manchete o tempo todo.

Big Brother Brasil também já começou sendo assunto. Escolho falar sobre isso então.

Li muito sobre o Big Brother Brasil esta semana... críticas e mais críticas. Todos dizendo que o programa é um lixo e que não agrega nenhuma cultura aos telespectadores. Bom, eu não acho que novela, Jornal sensacionalista e cervejinha no final de semana me traga alguma cultura também não.

O que eu estou querendo dizer... BBB é um programa de entretenimento! Tá certo, não consigo ter minha atenção despertada para esse tipo de entretenimento, assim como não consigo assistir Zorra Total ou Pânico... mas isso não significa que o programa não sirva para este fim. Conheço muita gente que assiste e se diverte.

E aí, me desculpem aqueles que só criticam... mas não só de cultura a gente sobrevive. Quer programação cultural? Vá ao teatro, visite um museu... assista National Geografic... Quer uma programação light? Vamos discutir política ou filosofia. Vamos nos revoltar com a farra dos nossos políticos e repetir seus nomes nas redes sociais tanto quanto o nome Luiza, que nem podia se defender pois estava no Canadá (!!!).

Vamos tornar o BBB mais culto? Então, vamos lá... vamos discutir o fato do participante Daniel ter sido expulso. O que vocês acham? Ele transgrediu alguma regra? Qual a sua opinião, o que você pensa e sabe do assunto? Me diga você, pessoa tão culta, tão preocupada com a moral e os bons costumes e tão crítico quando o assunto é a programação da TV popular.

Espero não ser mal interpretada mas acho que as pessoas precisam deixar a hipocrisia de lado e assumirem seus papéis na sociedade.

Bom, pra finalizar, gostaria de deixar aqui um trecho de uma matéria que eu li hoje no site JusBrasil (http://amp-mg.jusbrasil.com.br/noticias/2994411/o-brasil-nao-conhece-os-limites-do-abuso-sexual). Diz assim: “As mudanças na tipificação penal de crimes sexuais feitas em 2009 no Código Penal Brasileiro colocam o país como um dos mais severos no tratamento desse tipo de violência. Mas, como mostram as reações do público diante das suspeitas de abuso sexual na edição de domingo do Big Brother Brasil , da Rede Globo, o padrão nacional ainda é o de desconhecimento da lei e dos limites do que é estupro. A lei brasileira considera estupro, por exemplo, o beijo forçado que é aplicado em uma noitada, ou constrangimentos contra os quais a vítima não possa se defender. Apesar do rigor do texto, o entendimento da maioria da população parece congelado na interpretação de que só com penetração há o crime”.

Então é isso. Vamos nos informar melhor antes de opinar e divulgar somente aquilo que realmente é importante. Ao invés de julgar o programa, vamos julgar as atitudes das pessoas e tentar fazer com que casos lamentáveis como esse (que tenho certeza, são muito comuns na nossa sociedade) sejam usados para informar, esclarecer e auxiliar aqueles que não têm acesso à ampla informação.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Final de semana na praia...

Final de semana na praia. Sol forte, calor... tudo que brasileiro ama.

A dor de cabeça começa na hora de achar uma vaga para estacionar. Isto feito, é a hora do flanelinha. Começo a pensar: “... isso é um absurdo, pois já temos que pagar IPVA, ainda temos que pagar (ainda pior, informalmente) por uma vaga na rua, que é um bem público? Não somos obrigados... mas pagamos pra não correr o risco de ter o carro danificado... cadê a fiscalização do Estado?”.

Bom, melhor deixar esses pensamentos de lado, ou vou me aborrecer. Chego na praia e tenho a impressão de que não me cabe ali. Não que existam muitos banhistas, mas todas as cadeiras e guardassóis dos quiosques estão abertos demarcando território. “Bom, achei que a praia também era pública... mas vamos lá”. Tento saber o preço para alugar um guardassol, três cadeiras... e descubro que ali existe “consumação mínima”. De novo, “aprendi na faculdade que nenhum consumidor pode ser obrigado a consumir determinado valor em produtos, pois isso configura compra casada, que é vedada no art. 39, I do CDC”...

Meus amigos começam a me olhar com aquela cara de não tem outro jeito... e mais uma vez, acho melhor relaxar e não pensar em nada que não seja sol, mar, protetor...

Bate uma fomezinha e a gente pede uma porção de camarão, que quando chega, só de olhar desanima comer. Mas nessa hora, deixo a minha irmã (nutricionista) assumir o papel da politicamente correta... Controlo minha fala mas não meus pensamentos... “O cuidado na conservação dos alimentos nas praias no verão, em virtude das altas temperaturas, é fundamental. São comuns as intoxicações alimentares, pela contaminação do gelo, da água, assim como das mãos de quem prepara. Determinados produtos, como peixes e frutos do mar, perecem com facilidade e causam constantemente problemas aos consumidores. Deve haver fiscalização, especialmente por parte das vigilâncias sanitárias, para evitar que alimentos deteriorados e adulterados sejam consumidos, mas...”

E por fim, algum atleta desavisado me acerta uma bolada na cabeça... “normalmente existe legislação municipal limitando/proibindo as práticas esportivas em determinados horários, justamente para garantir a plena utilização/segurança de todos. Deduzo que deva ser a tal providência divina querendo me fazer parar de pensar nisso tudo e aproveitar o final de semana sem me preocupar com essas bobagens, afinal, isso sempre vai existir mesmo... “ e eu o desculpo dizendo beleza, tá tranquilo!

Dentro de mim, o monstro chamado indignação enfim dorme... respiro aliviada, dou gargalhada da situação e um mergulho, já tendo a certeza de que este dia vai virar texto para o blog.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Ponto eletrônico

Mas uma vez o governo adiou a implantação do ponto eletrônico obrigatório, que estava previsto para 1º de janeiro. E com novidades, visto que agora sua implantação será de forma escalonada. Isso porque existe a alegação de que a medida tratá altos custos aos empregadores (por conta de equipamentos de controle, etc).
Mas não é exatamente sobre a forma como será implementado que eu quero falar, e sim sobre essa alegação de altos custos... e suas implicações no mundo dos fatos.
Vivemos num país que luta para que o trabalho informal não vire regra. A Justiça do Trabalho precisa sim ser mais precisa e exigente quanto ao controle da jornada, mas a meu ver essa lei mudará muito pouco ou quase nada o que acontece nos dias atuais.
Para as grandes empresas, o ponto eletrônico já é adotado faz tempo. Afinal, é impossível controlar milhares de funcionários com cartões manuais.
Agora, uma pequena empresa, que ainda está se estruturando, que luta para se manter em meio à enorme carga tributária que reza em nosso país, poderá mesmo fazer esse “auto-controle”? Isso não será mais um pressuposto para a ilegalidade?
Temo que esta seja mais uma lei sem possibilidade real de aplicação, como tantas outras que vemos diariamente, e o Princípio da Primazia da Realidade continuará sendo indispensável à justiça trabalhista...


Nota: O Princípio da Primazia da Realidade significa que, em caso de discordância entre o que ocorre na prática e o que emerge de documentos ou acordos, deve-se dar preferência ao primeiro, isto é, ao que acontece no terreno dos fatos.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

E agora, José?

Na primeira segunda-feira do ano, me falta inspiração para escrever,
me sobra nostalgia e preguiça...
Em diversos momentos do dia parei e pensei que então o ano novo enfim chegou...
E agora? 
Me lembrei do José... me lembrei do Drummond...

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

...Esqueci de você!
O ano começou.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Poesia!?!

A louca

Quando a burrice de uma pessoa se confunde com loucura,

Quando essa pessoa perde a razão e só faz bobagem,

Quando a lucidez se perde, as luzes da inteligência se apagam

E salve-se quem puder, lá vem ela.


Misto de falsidade e orgulho besta,

esconda-se onde puder!

Feito tempestade enfurecida ela venta por onde passa

e espalha sua má vontade de doida varrida.


Ser humano louco, que de razão tem tão pouco

Sua risada parece um grunhido

Sua autodefesa é o ataque.


Por que se preocupa tanto com o outro?

Por que não vive a vida e descansa um pouco?

Sua loucura torna-te burra, menina maluca!


Nota: É tanta gente surtada à minha volta que às vezes preciso fazer “graça” das situações cotidianas, ou enlouqueço junto.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

"Eduardo e Mônica" não mais...

Lendo o texto abaixo, me dei conta de que as coisas realmente precisam de um ponto final.

A maioria das pessoas irá interpretá-lo como uma história triste, sem final feliz... mas quando se tem a determinação de interromper aquilo que já não pode mais dar certo e que não nos traz a felicidade merecida, a história fica bonita. Vira ato de coragem...

2011 foi o ano de acabar com passados que ainda me assombravam. Pessoas que nunca mereceram estar na minha vida, mas que sei lá se por comodismo ou preguiça mesmo, eu não conseguia decidir esquecer totalmente.

Esse texto representa o meu momento. Momento de tirar férias e “viajar” sozinha, mas em paz...

E sim, existe vida após “Eduardo e Mônica”. Mesmo sabendo o quanto é difícil existir outro relacionamento de romance de letra de música, podemos optar por uma vida muito mais verdadeira e dessa forma encontrar a calma e a serenidade de que precisamos para seguir em frente.

É o que eu desejo sinceramente... para mim e para você.

Feliz 2012!


Nota: Texto escrito por Rosana Caiado Ferreira, em contrapartida ao filme publicitário “Eduardo e Mônica – O Filme”, lançado pela VIVO.


“Eduardo e Mônica” – Por Rosana Caiado Ferreira

Mônica já tinha ameaçado duas vezes, mas Eduardo não tinha levado a sério.

Na terceira, falou manso, às oito da manhã, e Eduardo percebeu que era pra valer.

Saiu de casa antes do almoço, com a roupa do corpo – calça jeans e camiseta de malha.

Deixou o utilitário, os gêmeos, a segunda das três parcelas da geladeira que cospe gelo e uma dúzia de fotos da última viagem rasgadas ao meio sobre os lençóis de fios de seda, enquanto Mônica penteava o cabelo diante do reflexo que o espelho do banheiro demoraria a esquecer – Mônica escovando os dentes de Eduardo, Eduardo beijando Mônica com pasta, Mônica dando gargalhadas de olhar para o teto, as crianças batendo na porta.

Embora Mônica tivesse tomado as rédeas do fim, o desejo da separação era compartilhado.

Mas Eduardo não podia imaginar que nem sua mãe, nem seu melhor amigo, nem sua mulher (ex), não fosse segurá-lo pelo braço e dizer “Não pode! Já pro castigo!”

Uma espiral no peito de Mônica doeu como se alguém tivesse aberto o ralo do amor.

Caiu um temporal que lavou os muros da casa que nunca mais será a mesma, ainda que as janelas, as panelas e os tapetes se mantenham iguais – perderam o sentido.

Sofrer uma separação é viver todas outra vez.

Mônica passou um barbante pelas pilhas de fotos separadas por temas (México, Fernando de Noronha, Jeri, aniversários, outras) e colocou dentro de uma caixa, junto com os cartões de aniversário e a aliança de ouro branco – Eduardo tirou a dele assim que soube que Mônica estava sem a dela.

Subiu a escada de alumínio e empurrou a caixa na parte de cima do armário, no fundo – esconderijo preferido do passado.

Demorou dois degraus para entender que as lembranças independem de provas e, como os gêmeos estavam na natação, se permitiu algumas lágrimas sentada ao pé da escada de alumínio, pela certeza de já ter vivido o grande amor de sua vida.

A partir de então seriam apenas histórias circunstanciais, sem a entrega a que havia se acostumado.

Eduardo explicava para Mônica coisas sobre o amor, a saudade, a família e o final feliz.

“Então, vamos namorar?”

E Mônica riu e quis saber se ele estava pedindo anestesia.

“Por favor”.

Ela preferiu experimentar a dor de uma só vez, como se fosse esse o jeito mais rápido de convalescer.

Eduardo foi para uma festa que durou quatro meses.

Tomou drogas de diversas cores, álcoois de preços variados e teve pesadelos de acordar suado – sonhava que tinha levado um caldo e não conseguia puxar ar.

A cada porre, chamava por Mônica, ora com a cabeça enterrada na mesa, ora com a boca cerrada contra o telefone celular.

Algumas vezes, com a língua enfiada em uma orelha qualquer.

E seu corpo, que já tinha tremido de paixão e ansiedade, então tremia de raiva, sentimento próprio dos apaixonados.

Quando Eduardo passou em casa para buscar alguns de seus pertences, sua barba estava cheia e as crianças, nas aulinhas de inglês.

Eduardo e Mônica fizeram no sofá da sala o sexo mais triste de que se tem notícia.

Eduardo gozou e disse “eu te amo”. Mônica chorou, mas secou depressa a lágrima em uma almofada.

E os dois se despediram com pesar, telefonaram para os amigos, tomaram comprimidos e pediram clemência ao mesmo tempo, mas não ficaram sabendo.

Eduardo abria os olhos, mas não queria se levantar.

Passava a mão no lado direito da cama para ver se Mônica estava lá.

Eduardo fantasiava que ela chegaria no meio da noite, se enfiaria debaixo dos lençóis e daria um beijo de bom-dia, que significaria que ela tinha voltado para ficar.

Mônica fingia que estava tudo bem, enquanto diluía a dor no banheiro e dava descarga.

Emagreceu cinco quilos e perdeu as roupas que Eduardo tinha lhe dado de presente – uma das tentativas silenciosas e inofensivas de se manter perto dele.

Chegava em casa, subia a escada de alumínio, abria a caixa e vestia a aliança por alguns minutos, só para matar a saudade.

Em outro canto da cidade, Eduardo via Acossados pela terceira vez na semana.

No cartório, Eduardo olhava para baixo quando Mônica, de ray-ban, perguntou: “Como está seu avô?”

Eduardo não podia responder ou começaria a chorar.

Mônica disse: “Melhor chorar agora do que na frente do escrivão”.

Eduardo não queria chegar com o nariz vermelho.

E chorar ali não significaria não chorar lá, porque sempre que achava que tinha acabado, que já tinha chorado tudo, descobria que tinha mais para chorar.

Eduardo relatou os meses anteriores em cinco minutos e transpareceu o nervosismo da hora.

Mônica se calou.

As testemunhas testemunharam.

O advogado tentou apressar o que Eduardo poderia adiar por pelo menos trinta anos, mas Mônica tratou de providenciar o quanto antes.

Arrependeu-se.

É duro se separar quando o problema nunca foi falta de amor.

O escrivão leu os termos do divórcio enquanto batucava o lápis na mesa num ritmo conhecido a todos os presentes.

Três homens na baia ao lado falaram alto sobre o pagode da noite anterior.

O advogado olhou para o relógio e pediu que conferissem os números da documentação e o mundo provou que não para só porque Eduardo e Mônica estão se divorciando.

A separação e o divórcio, opostos da paixão, pedem gerúndio: demoram meses, talvez anos.

Já a paixão não admite: quando se vê, já foi.

Eduardo encostou o corpo na parede para não desfalecer enquanto Mônica deixou uma lágrima escorrer por baixo do ray-ban, como se os dois estivessem em um velório de pessoas vivas.

Esperou-se o momento em que o escrivão, como um padre, perguntaria se alguém tinha alguma coisa contra aquele divórcio – fale agora ou cale-se para sempre.

E um carinha do cursinho do Eduardo chutaria a porta do cartório e gritaria que eles não podem se separar, ele completa ela e vice-versa, que nem feijão com arroz.

O escrivão mandaria que selassem as pazes em um abraço, que Mônica daria com a força de uma multidão.

Quando o juiz acabou de ler a sentença, Mônica perguntou onde devia assinar.

Levantou-se e assinou como quem faz o cheque que paga as compras do mês.

Eduardo tentou imitá-la, mas a assinatura saiu tremida.

As testemunhas.

O advogado.

Eduardo foi ao banheiro, onde assoou o nariz vermelho.

Eduardo queria tomar um conhaque.

Os dois entraram sozinhos no elevador e foram direto para o poço, apesar da lotação de seis pessoas.

Eduardo e Mônica se abraçaram na porta do cartório e ficaram na mesma posição por dez minutos, em pranto profundo.

Por vezes, trocaram de lado, para aliviar a dor no pescoço – que em minutos se espalharia por todo o corpo.

Eduardo disse: “Você está linda”.

Depois: “Não me arrependo de ter me casado com você.”

Mônica queria dizer “Casaria com você outra vez”, mas não saiu.

Aos amigos, Mônica disse que era o que tinha de ser feito, que essas coisas acontecem, entre outras besteiras.

Sozinha, chorou as lágrimas de uma vida inteira, molhou a gola do vestido e acabou com os lenços de papel da caixa.

Eduardo encheu a cara de garotas.

A casa anda bagunçada e as crianças andam cabisbaixas.

Do lado de fora, a placa “vende-se”.

Eduardo toma o dever e não deixa os meninos ganharem no videogame.

Mônica pega os filhos nos fins de semana e tem bruxismo às terças e quartas.

Eduardo e Mônica sabem que jamais existirá outro amor como o de Eduardo e Mônica, nem mesmo entre Eduardo e Mônica.

Nessas férias, vão viajar, mas não um com o outro.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Feliz Natal!



Em meio a notícias de greve no setor aeroviário, arenga entre CNJ e STF, chuvas espalhando terror, índices de violência expressivos...

Que o verdadeiro sentido do Natal te acompanhe. Que você se torne uma pessoa melhor e mais feliz.

Que possa compreender o outro sem esperar muito em troca.

Que entenda o valor de um sorriso e a importância da família reunida... que entenda que o maior presente já nos foi dado!

E que coisas materiais só têm valor no mundo material. Bom mesmo é ter alguém para abraçar, dar carinho, compartilhar os bons momentos.

Dispa-se de preconceitos e abrace toda a gente, com carinho, com ternura...

Mantenha acesa a chama da solidariedade.



Tem um jingle de natal que eu adoro, e diz assim:



"Quero ver você não chorar,
Não olhar para trás,
Nem se arrepender do que faz.
Quero ver o amor vencer
Mas se a dor nascer,
Você resistir e sorrir.
Se você pode ser assim,
Tão enorme assim eu vou crer
Que o Natal existe
E ninguém é triste
Que no mundo há sempre amor.
Bom Natal, um Feliz Natal,
muito amor e paz pra você,
pra você."



Então... "Bom Natal, um Feliz Natal, muito amor e paz pra você!!!"

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Redes Sociais




Ainda lembro de quando se anunciava com veemência a importância do mundo globalizado, a difusão da internet como ferramenta indispensável ao mundo moderno, e todos os seus surpreendentes, e reais, benefícios.
Nas primeiras aulas da faculdade de Direito ensinavam-nos a importância da analogia, sendo indispensável comentar os crimes praticados na internet, como agir nos casos em que não existiam previsões legais.
Pensou-se em quase tudo. Esqueceram somente de nos dizer como prevenir o mau uso das redes sociais.
Eu já fui adepta, já fui contra e faz uns dois anos mais ou menos, me rendi aos convites dos amigos e voltei. Não sei por quanto tempo mais.
Não consigo mais achar interessante, não tem nada que me motive a utilizá-las.
E qual a finalidade então de manter um blog, quando nem as redes sociais me convencem mais?
Explico melhor fazendo uma rápida comparação entre as coisas que eu escrevo neste blog e as coisas que “curto” nas redes sociais.
A maior diferença está no modo como elas aparecem para as pessoas que me são comuns.
No blog, quem realmente comenta é quem está interessado. Só mesmo alguém com um interesse relevante pelos meus pensamentos desperdiça seu tempo e acessa esta página.
Na rede social, eu invado os murais das pessoas com comentários nem sempre “agradáveis”.
Lembro-me de um episódio recente onde me senti bastante constrangida.
"Penúltimo jogo do campeonato brasileiro, após deixar explícita minha satisfação com o resultado da rodada, fui bombardeada por comentários contrários à minha opinião..."
Refleti e assumi meu erro com um pedido pessoal de desculpas.
Já que futebol é paixão de muitos e motivo de desentendimento entre tantos outros, não poderia eu, pessoa anônima e dotada de extrema ironia, expressar minha humilde opinião!
A verdade é que às vezes escrevemos sem saber a dimensão daquela mensagem e nem damos opção às pessoas, de decidirem se querem ou não ler aquilo.
E está criado o mal estar.
O que era para ser só um comentário sem muita importância, se transforma na coisa mais grave que você já disse... capaz de te fazer ser julgada por pessoas que mal te conhecem...
As redes sociais foram criadas com o objetivo de unir, de modernizar a forma como nos socializamos, mas foi habitada por pessoas medíocres, que não sabem conviver com uma opinião contrária ao seu próprio meio. Não importa se estamos num ambiente virtual ou numa mesa de bar com pessoas conhecidas, a idéia de cada um precisa ser ouvida e respeitada, ou então não conseguiremos entender o grande conceito de viver democraticamente.
Sinceramente? Era mais feliz com os meus diários secretos.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Final Feliz (???)



Vamos voltar no tempo. Em outubro de 2010, o STF proferiu sua decisão sobre o caso Jader Barbalho, na questão da ficha limpa. E a história, resumidamente, foi a seguinte:
Havia número par de ministros na Corte porque Lula não nomeava ninguém para a vaga de Eros Grau. O STF, então, sabia que estava empatada a questão da constitucionalidade da ficha limpa, mas, mesmo assim, cedendo à pressão da mídia, colocou o caso Jader em pauta.
Resultado : empate. E aí é que “a porca torce o rabo”. Resolveu-se na marretada. Melhor explicando, os ministros, não sem muitos protestos, decidiram, por maioria, dar uma resposta. E assim se fez. Como o ministro Peluso não quis fazer uso do voto de qualidade, que na prática significava um voto duplo, entendeu-se que deveria prevalecer a decisão da instância inferior, no caso o TSE, que havia cassado a candidatura de Jader por julgar constitucional a ficha limpa. Na época, houve um alerta para o fato de que se o novo ministro viesse com o entendimento da inconstitucionalidade da lei para aquele pleito, Jader, independente de seu mérito político, seria um injustiçado, porque deveria entrar com uma rescisória.
E quem conhece os meandros da Corte sabe que a decisão da rescisória iria ficar para outro mandato. Dito e feito. O ministro Fux toma posse e se alinha com os cinco ministros que entendiam que a lei era inconstitucional para aquele pleito. O caso de Jader, que já estava decidido, recebe então embargos de declaração. Seja lá o que precisava ser aclarado, o fato é que vão a plenário os embargos, e novamente dá-se empate, agora porque falta um julgador diante da aposentadoria da ministra Ellen. Os ministros Joaquim Barbosa, Fux, Cármen Lúcia, Lewandowski e Ayres Britto rejeitavam os embargos. Toffoli, Gilmar Mendes, Marco Aurélio, Celso de Mello e Peluso acolhiam os ditos-cujos. O ministro Peluso proclamou que iria aguardar a nomeação e posse da nova ministra para decidir.
Se a nova ministra, que nessa altura todo mundo já sabia ser Rosa da Rosa, decidisse rejeitar os embargos, Jader teria que percorrer o tortuoso mundo da rescisória. Os embargos, então, eram o atalho salvador. Mais do que salvador, diríamos até milagreiro, porque vá lá, você, entrar com embargos modificativos de um acórdão do pleno num recurso extraordinário para ver o que vai dar....
Enfim, era assim que estávamos. Mas como a coisa já tinha começado torta, por que não entortá-la mais um pouco ? Foi isso que se deu. Provocado por uma petição adrede engendrada (e, segundo a Folha de S.Paulo, "após pressão da cúpula do PMDB"), o ministro Peluso resolveu lançar mão do tal voto de qualidade, aquele mesmo que ele não usou da outra vez, para pôr um fim ao caso, acolhendo os embargos e determinando a posse de Jader, que já perdeu um ano de mandato nessa lengalenga.
Com baixíssima audiência, será o “the end” desta trama vergonhosa? 
Às vésperas das festas de final de ano, não é bem o assunto que eu gostaria de comentar... mas estamos no Brasil, e aqui as coisas acontecem quando se tem menos telespectador assistindo.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Desabafo...

Todos os dias me deparo com casos de extrema má vontade... seja no escritório, nos cartórios, bancos, farmácias, filas de supermercado...

E a mais nova demonstração da preguiça humana, pra não dizer falta de profissionalismo aconteceu hoje e eu relato abaixo.

Solicitei uma “informação” a um colega de trabalho (daquelas que somente ele poderia fornecer) e o mesmo respondeu:

- “Você já sabe o que vai fazer com ela? Se disser, me dará menos trabalho...”

Tem coisas que são inimagináveis de ouvir e até mesmo entender.

“-Ok, sem problemas...” Mas tive vontade de responder:

“-Eu quero esta informação para te sacanear... é, só te fazer trabalhar um pouco! Ainda não sei como vou usá-la!”

Fala sério! As pessoas perdem a noção das suas funções...

(Essa não estava nos planos ser publicada, mas a indignação foi muito grande! )