Mal começou, e 2012 já disse a que veio. Não fosse somente a chuva para nos atormentar, os desastres naturais... convivemos ainda neste primeiro mês do ano com um tragédia de proporções e causas ainda inexplicáveis (prefiro pensar assim....).
Sexta-feira pela manhã, ainda abalada pelas notícias da tragédia no centro do Rio (sim, essas notícias me abalam sinceramente), em meio a matérias sensacionalistas de jornais que se dizem preocupados com a informação mas que na verdade não param de especular e espezinhar a dor alheia em busca de audiência, tive acesso ao texto abaixo... e achei de uma inteligência ímpar, e acima de tudo... de muita sensibilidade.
Pois bem, nesta semana em que as idéias me fogem, acho justo divulgá-lo neste espaço como forma de tornar mais abrangente sua temática quase poética, embora triste.
"Peço desculpas se ocupo vosso tempo e o
dos leitores com divagações deste provecto e solitário carioca, que vive em sua
vetusta morada aos pés da Rua do Jogo da Bola, no castigado centro do Rio de
Janeiro.
Contemplando as mazelas que afligem esta
urbe moderna, fico saudoso do tempo em que nossos avós, os sinhozinhos e as
nhanhãs de outrora, passeavam despreocupados, com seus tílburis, pelas ruas da
Corte, sem jamais imaginar que seus descendentes sofreriam com bueiros a
explodir, arranha-céus a desmoronar e helicópteros a perturbar seu
sono.
Quando falo nisso, meus sobrinhos dizem
que estou a romantizar o passado, que a cidade antiga, com suas vielas infectas
e suas epidemias de febre amarela, estava longe de ser um paraíso, mas essa
nostalgia do que não vivi insiste em habitar minha cachola, talvez perturbada
pelo incessante funk que meu jovem vizinho insiste em ensinar para todos os
moradores do Morro da Conceição.
De uns tempos para cá, dei para imaginar
que as tragédias que se abatem sobre esta cidade são vinganças que o passado
fica a engendrar, em represália aos maus-tratos que o progresso causou à memória
desta terra.
Assim, passei a ver a tragédia do Bateau
Mouche como uma resposta do Deus Netuno aos muitos aterros que avançaram sobre
seus domínios. A explosão de um prédio na Praça Tiradentes, como uma retaliação
arquitetada por Clio, a musa da História, diante de um contrassenso : como é que
a cidade ergue, no meio de uma praça dedicada ao Mártir da Inconfidência, uma
estátua de Dom Pedro Primeiro, um neto daquela desassisada rainha que foi a
algoz do nosso herói?
Tudo isso me vem à baila quando penso na
tragédia mais recente da cidade, que pôs abaixo três prédios da Rua Treze de
Maio. A Treze de Maio, que já se chamou Rua da Guarda Velha, porque ali o velho
Gomes Freire havia estabelecido um corpo de guarda para conter a algazarra dos
escravos que vinham buscar água no Chafariz da Carioca... A Treze de Maio, que
já abrigou o Teatro Lírico, onde brilharam Caruso, Sarah Bernhardt e Duse, e
onde Toscanini pela primeira vez regeu uma orquestra... A Treze de Maio, que
deveria ser tão cara para os jornalistas, pois ali ficava o prédio neogótico da
Imprensa Nacional, ali Irineu Marinho fundou O Globo, e Chateaubriand instalou
num certo momento seu império.
E não deixa de ser irônico o fato de que
um dos edifícios destruídos agora fica na pequena Rua Manuel de Carvalho, cujo
nome homenageia um dos mestres da engenharia brasileira, auxiliar de Paulo de
Frontin na epopeia de construção da Avenida Central.
Recuo mais no tempo e me recordo que,
ocupando o leito da atual Treze de Maio, havia uma lagoa, a de Santo Antônio. E,
voltando à conspiratória teoria da Vingança da História, fico a imaginar se não
haveria nessa tragédia uma revanche tardia dos sapos da antiga lagoa. Afinal, os
sapos, barbudos ou não, podem causar muitos estragos..."
(Por Tertuliano Vahia Monteiro de Sá
e Benevides)
Publicado no site www.migalhas.com.br (edição nº2803).
sábado, 28 de janeiro de 2012
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Entretenimento X Cultura
Essa semana foi difícil chegar até aqui, sentar e
escrever... Escrever sobre o quê? Tantas bobagens nos veículos de comunicação,
assuntos sérios pouco comentados e a garota Luiza virando manchete o tempo
todo.
Big Brother Brasil também já começou sendo assunto. Escolho
falar sobre isso então.
Li muito sobre o Big Brother Brasil esta semana... críticas
e mais críticas. Todos dizendo que o programa é um lixo e que não agrega
nenhuma cultura aos telespectadores. Bom, eu não acho que novela, Jornal
sensacionalista e cervejinha no final de semana me traga alguma cultura também
não.
O que eu estou querendo dizer... BBB é um programa de
entretenimento! Tá certo, não consigo ter minha atenção despertada para esse
tipo de entretenimento, assim como não consigo assistir Zorra Total ou
Pânico... mas isso não significa que o programa não sirva para este fim.
Conheço muita gente que assiste e se diverte.
E aí, me desculpem aqueles que só criticam... mas não só de
cultura a gente sobrevive. Quer programação cultural? Vá ao teatro, visite um
museu... assista National Geografic... Quer uma programação light? Vamos
discutir política ou filosofia. Vamos nos revoltar com a farra dos nossos
políticos e repetir seus nomes nas redes sociais tanto quanto o nome Luiza, que
nem podia se defender pois estava no Canadá (!!!).
Vamos tornar o BBB mais culto? Então, vamos lá... vamos
discutir o fato do participante Daniel ter sido expulso. O que vocês acham? Ele
transgrediu alguma regra? Qual a sua opinião, o que você pensa e sabe do
assunto? Me diga você, pessoa tão culta, tão preocupada com a moral e os bons
costumes e tão crítico quando o assunto é a programação da TV popular.
Espero não ser mal interpretada mas acho que as pessoas
precisam deixar a hipocrisia de lado e assumirem seus papéis na sociedade.
Bom, pra finalizar, gostaria de deixar aqui um trecho de uma
matéria que eu li hoje no site JusBrasil (http://amp-mg.jusbrasil.com.br/noticias/2994411/o-brasil-nao-conhece-os-limites-do-abuso-sexual).
Diz assim: “As mudanças na tipificação penal de crimes sexuais feitas em 2009
no Código Penal Brasileiro colocam o país como um dos mais severos no
tratamento desse tipo de violência. Mas, como mostram as reações do público
diante das suspeitas de abuso sexual na edição de domingo do Big Brother Brasil , da Rede Globo, o
padrão nacional ainda é o de desconhecimento da lei e dos limites do que é
estupro. A lei brasileira considera estupro, por exemplo, o beijo forçado que é
aplicado em uma noitada, ou constrangimentos contra os quais a vítima não possa
se defender. Apesar do rigor do texto, o entendimento da maioria da população
parece congelado na interpretação de que só com penetração há o crime”.
Então é isso. Vamos nos informar melhor antes de opinar e divulgar
somente aquilo que realmente é importante. Ao invés de julgar o programa, vamos
julgar as atitudes das pessoas e tentar fazer com que casos lamentáveis como
esse (que tenho certeza, são muito comuns na nossa sociedade) sejam usados para
informar, esclarecer e auxiliar aqueles que não têm acesso à ampla informação.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Final de semana na praia...
Final de semana na praia. Sol forte, calor... tudo que
brasileiro ama.
A dor de cabeça começa na hora de achar uma vaga para
estacionar. Isto feito, é a hora do flanelinha. Começo a pensar: “... isso é um
absurdo, pois já temos que pagar IPVA, ainda temos que pagar (ainda pior,
informalmente) por uma vaga na rua, que é um bem público? Não somos obrigados...
mas pagamos pra não correr o risco de ter o carro danificado... cadê a
fiscalização do Estado?”.
Bom, melhor deixar esses pensamentos de lado, ou vou me
aborrecer. Chego na praia e tenho a impressão de que não me cabe ali. Não que
existam muitos banhistas, mas todas as cadeiras e guardassóis dos quiosques estão abertos demarcando
território. “Bom, achei que a praia também era pública... mas vamos lá”.
Tento saber o preço para alugar um guardassol, três
cadeiras... e descubro que ali existe “consumação mínima”. De novo, “aprendi na
faculdade que nenhum consumidor pode ser obrigado a consumir determinado valor
em produtos, pois isso configura compra casada, que é vedada no art. 39,
I do CDC”...
Meus amigos começam a me olhar com aquela cara de não tem
outro jeito... e mais uma vez, acho melhor relaxar e não pensar em nada que
não seja sol, mar, protetor...
Bate uma fomezinha e a gente pede uma porção de camarão, que
quando chega, só de olhar desanima comer. Mas nessa hora, deixo a minha irmã
(nutricionista) assumir o papel da politicamente correta... Controlo
minha fala mas não meus pensamentos... “O cuidado na conservação dos
alimentos nas praias no verão, em virtude das altas temperaturas, é fundamental.
São comuns as intoxicações alimentares, pela contaminação do gelo, da água,
assim como das mãos de quem prepara. Determinados produtos, como peixes e frutos
do mar, perecem com facilidade e causam constantemente problemas aos
consumidores. Deve haver fiscalização, especialmente por parte das vigilâncias
sanitárias, para evitar que alimentos deteriorados e adulterados sejam
consumidos, mas...”
E por fim, algum atleta desavisado me acerta uma
bolada na cabeça... “normalmente existe legislação municipal limitando/proibindo
as práticas esportivas em determinados horários, justamente para garantir a
plena utilização/segurança de todos. Deduzo que deva ser a tal providência
divina querendo me fazer parar de pensar nisso tudo e aproveitar o final de
semana sem me preocupar com essas bobagens, afinal, isso sempre vai existir
mesmo... “ e eu o desculpo dizendo beleza, tá tranquilo!
Dentro de mim, o monstro chamado indignação enfim
dorme... respiro aliviada, dou gargalhada da situação e um mergulho, já tendo a
certeza de que este dia vai virar texto para o blog.
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Ponto eletrônico
Mas
uma vez o governo adiou a implantação do ponto eletrônico obrigatório, que
estava previsto para 1º de janeiro. E com novidades, visto que agora sua
implantação será de forma escalonada. Isso porque existe a alegação de que a
medida tratá altos custos aos empregadores (por conta
de equipamentos de controle, etc).
Mas
não é exatamente sobre a forma como será implementado que eu quero falar, e sim
sobre essa alegação de altos custos... e suas implicações no mundo dos fatos.
Vivemos
num país que luta para que o trabalho informal não vire regra. A Justiça do
Trabalho precisa sim ser mais precisa e exigente quanto ao controle da jornada,
mas a meu ver essa lei mudará muito pouco ou quase nada o que acontece nos dias
atuais.
Para
as grandes empresas, o ponto eletrônico já é adotado faz tempo. Afinal, é
impossível controlar milhares de funcionários com cartões manuais.
Agora,
uma pequena empresa, que ainda está se estruturando, que luta para se manter em
meio à enorme carga tributária que reza em nosso país, poderá mesmo fazer esse
“auto-controle”? Isso não será mais um pressuposto para a
ilegalidade?
Temo
que esta seja mais uma lei sem possibilidade real de aplicação, como tantas
outras que vemos diariamente, e o Princípio da Primazia da Realidade
continuará sendo indispensável à justiça trabalhista...
Nota:
O Princípio da Primazia da Realidade significa que, em caso de
discordância entre o que ocorre na prática e o que emerge de documentos ou
acordos, deve-se dar preferência ao primeiro, isto é, ao que acontece no terreno
dos fatos.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
E agora, José?
Na primeira segunda-feira do ano, me falta inspiração para escrever,
me sobra nostalgia e preguiça...
Em diversos momentos do dia parei e pensei que então o ano novo enfim chegou...
E agora?
Me lembrei do José... me lembrei do Drummond...
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
...Esqueci de você!
O ano começou.
me sobra nostalgia e preguiça...
Em diversos momentos do dia parei e pensei que então o ano novo enfim chegou...
E agora?
Me lembrei do José... me lembrei do Drummond...
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
...Esqueci de você!
O ano começou.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Poesia!?!
A louca
Quando a burrice de uma pessoa se confunde com
loucura,
Quando essa pessoa perde a razão e só faz bobagem,
Quando a lucidez se perde, as luzes da inteligência se
apagam
E salve-se quem puder, lá vem ela.
Misto de falsidade e orgulho besta,
esconda-se onde puder!
Feito tempestade enfurecida ela venta por onde
passa
e espalha sua má vontade de doida varrida.
Ser humano louco, que de razão tem tão pouco
Sua risada parece um grunhido
Sua autodefesa é o ataque.
Por que se preocupa tanto com o outro?
Por que não vive a vida e descansa um pouco?
Sua loucura torna-te burra, menina maluca!
Nota: É tanta gente surtada à minha volta que às vezes
preciso fazer “graça” das situações cotidianas, ou enlouqueço junto.
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
"Eduardo e Mônica" não mais...
Lendo o texto abaixo, me dei conta de que as coisas realmente
precisam de um ponto final.
A maioria das pessoas irá interpretá-lo como uma história
triste, sem final feliz... mas quando se tem a determinação de interromper
aquilo que já não pode mais dar certo e que não nos traz a felicidade
merecida, a história fica bonita. Vira ato de coragem...
2011 foi o ano de acabar com passados que ainda me
assombravam. Pessoas que nunca mereceram estar na minha vida, mas que sei lá se
por comodismo ou preguiça mesmo, eu não conseguia decidir esquecer
totalmente.
Esse texto representa o meu momento. Momento de tirar férias
e “viajar” sozinha, mas em paz...
E sim, existe vida após “Eduardo e Mônica”. Mesmo sabendo o
quanto é difícil existir outro relacionamento de romance de letra de música,
podemos optar por uma vida muito mais verdadeira e dessa forma encontrar a calma
e a serenidade de que precisamos para seguir em frente.
É o que eu desejo sinceramente... para mim e para você.
Feliz 2012!
Nota: Texto escrito por Rosana Caiado Ferreira, em
contrapartida ao filme publicitário “Eduardo e Mônica – O Filme”, lançado pela
VIVO.
“Eduardo e Mônica”
– Por Rosana Caiado Ferreira
Mônica já tinha
ameaçado duas vezes, mas Eduardo não tinha levado a sério.
Na terceira, falou
manso, às oito da manhã, e Eduardo percebeu que era pra valer.
Saiu de casa antes
do almoço, com a roupa do corpo – calça jeans e camiseta de malha.
Deixou o utilitário,
os gêmeos, a segunda das três parcelas da geladeira que cospe gelo e uma dúzia
de fotos da última viagem rasgadas ao meio sobre os lençóis de fios de seda,
enquanto Mônica penteava o cabelo diante do reflexo que o espelho do banheiro
demoraria a esquecer – Mônica escovando os dentes de Eduardo, Eduardo beijando
Mônica com pasta, Mônica dando gargalhadas de olhar para o teto, as crianças
batendo na porta.
Embora Mônica
tivesse tomado as rédeas do fim, o desejo da separação era
compartilhado.
Mas Eduardo não
podia imaginar que nem sua mãe, nem seu melhor amigo, nem sua mulher (ex), não
fosse segurá-lo pelo braço e dizer “Não pode! Já pro castigo!”
Uma espiral no peito
de Mônica doeu como
se alguém tivesse aberto o ralo do amor.
Caiu um temporal que
lavou os muros da casa que nunca mais será a mesma, ainda que as janelas, as
panelas e os tapetes se mantenham iguais – perderam o sentido.
Sofrer uma separação
é viver todas outra vez.
Mônica passou um
barbante pelas pilhas de fotos separadas por temas (México, Fernando de Noronha,
Jeri, aniversários, outras) e colocou dentro de uma
caixa, junto com os cartões de aniversário e a aliança de ouro branco – Eduardo
tirou a dele assim que soube que Mônica estava sem a dela.
Subiu a escada de
alumínio e empurrou a caixa na parte de cima do armário, no fundo – esconderijo
preferido do passado.
Demorou dois degraus
para entender que as lembranças independem de provas e, como os gêmeos estavam
na natação, se permitiu algumas lágrimas sentada ao pé da escada de alumínio,
pela certeza de já ter vivido o grande amor de sua vida.
A partir de então
seriam apenas histórias circunstanciais, sem a entrega a que havia se
acostumado.
Eduardo explicava
para Mônica coisas sobre o amor, a saudade, a família e o final
feliz.
“Então, vamos
namorar?”
E Mônica riu e quis
saber se ele estava pedindo anestesia.
“Por
favor”.
Ela preferiu
experimentar a dor de uma só vez, como se fosse esse o jeito mais rápido de
convalescer.
Eduardo foi para uma
festa que durou quatro meses.
Tomou drogas de
diversas cores, álcoois de preços variados e teve
pesadelos de acordar suado – sonhava que tinha levado um caldo e não conseguia
puxar ar.
A cada porre,
chamava por Mônica, ora com a cabeça enterrada na mesa, ora com a boca cerrada
contra o telefone celular.
Algumas vezes, com a
língua enfiada em uma orelha qualquer.
E seu corpo, que já
tinha tremido de paixão e ansiedade, então tremia de raiva, sentimento próprio
dos apaixonados.
Quando Eduardo
passou em casa para buscar alguns de seus pertences, sua barba estava cheia e as
crianças, nas aulinhas de inglês.
Eduardo e Mônica
fizeram no sofá da sala o sexo mais triste de que se tem notícia.
Eduardo gozou e
disse “eu te amo”. Mônica chorou, mas secou depressa a lágrima em uma
almofada.
E os dois se
despediram com pesar, telefonaram para os amigos, tomaram comprimidos e pediram
clemência ao mesmo tempo, mas não ficaram sabendo.
Eduardo abria os
olhos, mas não queria se levantar.
Passava a mão no
lado direito da cama para ver se Mônica estava lá.
Eduardo fantasiava
que ela chegaria no meio da noite, se enfiaria debaixo dos lençóis e daria um
beijo de bom-dia, que significaria que ela tinha voltado para ficar.
Mônica fingia que
estava tudo bem, enquanto diluía a dor no banheiro e dava descarga.
Emagreceu cinco
quilos e perdeu as roupas que Eduardo tinha lhe dado de presente – uma das
tentativas silenciosas e inofensivas de se manter perto dele.
Chegava em casa,
subia a escada de alumínio, abria a caixa e vestia a aliança por alguns minutos,
só para matar a saudade.
Em outro canto da
cidade, Eduardo via Acossados pela terceira vez na semana.
No cartório, Eduardo
olhava para baixo quando Mônica, de ray-ban, perguntou: “Como está seu
avô?”
Eduardo não podia
responder ou começaria a chorar.
Mônica disse:
“Melhor chorar agora do que na frente do escrivão”.
Eduardo não queria
chegar com o nariz vermelho.
E chorar ali não
significaria não chorar lá, porque sempre que achava que tinha acabado, que já
tinha chorado tudo, descobria que tinha mais para chorar.
Eduardo relatou os
meses anteriores em cinco minutos e transpareceu o nervosismo da
hora.
Mônica se
calou.
As testemunhas
testemunharam.
O advogado tentou
apressar o que Eduardo poderia adiar por pelo menos trinta anos, mas Mônica
tratou de providenciar o quanto antes.
Arrependeu-se.
É duro se separar
quando o problema nunca foi falta de amor.
O escrivão leu os
termos do divórcio enquanto batucava o lápis na mesa num ritmo conhecido a todos
os presentes.
Três homens na baia
ao lado falaram alto sobre o pagode da noite anterior.
O advogado olhou
para o relógio e pediu que conferissem os números da documentação e o mundo
provou que não para só porque Eduardo e Mônica estão se divorciando.
A separação e o
divórcio, opostos da paixão, pedem gerúndio: demoram meses, talvez anos.
Já a paixão não
admite: quando se vê, já foi.
Eduardo encostou o
corpo na parede para não desfalecer enquanto Mônica deixou uma lágrima escorrer
por baixo do ray-ban, como se os dois estivessem em um velório de pessoas
vivas.
Esperou-se o momento
em que o escrivão, como um padre, perguntaria se alguém tinha alguma coisa
contra aquele divórcio – fale agora ou cale-se para sempre.
E um carinha do
cursinho do Eduardo chutaria a porta do cartório e gritaria que eles não podem
se separar, ele completa ela e vice-versa, que nem feijão com arroz.
O escrivão mandaria
que selassem as pazes em um abraço, que Mônica daria com a força de uma
multidão.
Quando o juiz acabou
de ler a sentença, Mônica perguntou onde devia assinar.
Levantou-se e
assinou como quem faz o cheque que paga as compras do mês.
Eduardo tentou
imitá-la, mas a assinatura saiu tremida.
As
testemunhas.
O
advogado.
Eduardo foi ao
banheiro, onde assoou o nariz vermelho.
Eduardo queria tomar
um conhaque.
Os dois entraram
sozinhos no elevador e foram direto para o poço, apesar da lotação de seis
pessoas.
Eduardo e Mônica se
abraçaram na porta do cartório e ficaram na mesma posição por dez minutos, em
pranto profundo.
Por vezes, trocaram
de lado, para aliviar a dor no pescoço – que em minutos se espalharia por todo o
corpo.
Eduardo disse: “Você
está linda”.
Depois: “Não me
arrependo de ter me casado com você.”
Mônica queria dizer
“Casaria com você outra vez”, mas não saiu.
Aos amigos, Mônica
disse que era o que tinha de ser feito, que essas coisas acontecem, entre outras
besteiras.
Sozinha, chorou as
lágrimas de uma vida inteira, molhou a gola do vestido e acabou com os lenços de
papel da caixa.
Eduardo encheu a
cara de garotas.
A casa anda
bagunçada e as crianças andam cabisbaixas.
Do lado de fora, a
placa “vende-se”.
Eduardo toma o dever
e não deixa os meninos ganharem no videogame.
Mônica pega os
filhos nos fins de semana e tem bruxismo às terças e quartas.
Eduardo e Mônica
sabem que jamais existirá outro amor como o de Eduardo e Mônica, nem mesmo entre
Eduardo e Mônica.
Nessas férias, vão
viajar, mas não um com o outro.
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