sábado, 28 de janeiro de 2012

Um janeiro quase igual aos outros...

Mal começou, e 2012 já disse a que veio. Não fosse somente a chuva para nos atormentar, os desastres naturais... convivemos ainda neste primeiro mês do ano com um tragédia de proporções e causas ainda inexplicáveis (prefiro pensar assim....).


Sexta-feira pela manhã, ainda abalada pelas notícias da tragédia no centro do Rio (sim, essas notícias me abalam sinceramente), em meio a matérias sensacionalistas de jornais que se dizem preocupados com a informação mas que na verdade não param de especular e espezinhar a dor alheia em busca de audiência, tive acesso ao texto abaixo... e achei de uma inteligência ímpar, e acima de tudo... de muita sensibilidade.


Pois bem, nesta semana em que as idéias me fogem, acho justo divulgá-lo neste espaço como forma de tornar mais abrangente sua temática quase poética, embora triste.


"Peço desculpas se ocupo vosso tempo e o dos leitores com divagações deste provecto e solitário carioca, que vive em sua vetusta morada aos pés da Rua do Jogo da Bola, no castigado centro do Rio de Janeiro.

Contemplando as mazelas que afligem esta urbe moderna, fico saudoso do tempo em que nossos avós, os sinhozinhos e as nhanhãs de outrora, passeavam despreocupados, com seus tílburis, pelas ruas da Corte, sem jamais imaginar que seus descendentes sofreriam com bueiros a explodir, arranha-céus a desmoronar e helicópteros a perturbar seu sono.

Quando falo nisso, meus sobrinhos dizem que estou a romantizar o passado, que a cidade antiga, com suas vielas infectas e suas epidemias de febre amarela, estava longe de ser um paraíso, mas essa nostalgia do que não vivi insiste em habitar minha cachola, talvez perturbada pelo incessante funk que meu jovem vizinho insiste em ensinar para todos os moradores do Morro da Conceição.

De uns tempos para cá, dei para imaginar que as tragédias que se abatem sobre esta cidade são vinganças que o passado fica a engendrar, em represália aos maus-tratos que o progresso causou à memória desta terra.

Assim, passei a ver a tragédia do Bateau Mouche como uma resposta do Deus Netuno aos muitos aterros que avançaram sobre seus domínios. A explosão de um prédio na Praça Tiradentes, como uma retaliação arquitetada por Clio, a musa da História, diante de um contrassenso : como é que a cidade ergue, no meio de uma praça dedicada ao Mártir da Inconfidência, uma estátua de Dom Pedro Primeiro, um neto daquela desassisada rainha que foi a algoz do nosso herói?

Tudo isso me vem à baila quando penso na tragédia mais recente da cidade, que pôs abaixo três prédios da Rua Treze de Maio. A Treze de Maio, que já se chamou Rua da Guarda Velha, porque ali o velho Gomes Freire havia estabelecido um corpo de guarda para conter a algazarra dos escravos que vinham buscar água no Chafariz da Carioca... A Treze de Maio, que já abrigou o Teatro Lírico, onde brilharam Caruso, Sarah Bernhardt e Duse, e onde Toscanini pela primeira vez regeu uma orquestra... A Treze de Maio, que deveria ser tão cara para os jornalistas, pois ali ficava o prédio neogótico da Imprensa Nacional, ali Irineu Marinho fundou O Globo, e Chateaubriand instalou num certo momento seu império.

E não deixa de ser irônico o fato de que um dos edifícios destruídos agora fica na pequena Rua Manuel de Carvalho, cujo nome homenageia um dos mestres da engenharia brasileira, auxiliar de Paulo de Frontin na epopeia de construção da Avenida Central.

Recuo mais no tempo e me recordo que, ocupando o leito da atual Treze de Maio, havia uma lagoa, a de Santo Antônio. E, voltando à conspiratória teoria da Vingança da História, fico a imaginar se não haveria nessa tragédia uma revanche tardia dos sapos da antiga lagoa. Afinal, os sapos, barbudos ou não, podem causar muitos estragos..."

(Por Tertuliano Vahia Monteiro de Sá e Benevides)



Publicado no site www.migalhas.com.br (edição nº2803).

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Entretenimento X Cultura


Essa semana foi difícil chegar até aqui, sentar e escrever... Escrever sobre o quê? Tantas bobagens nos veículos de comunicação, assuntos sérios pouco comentados e a garota Luiza virando manchete o tempo todo.

Big Brother Brasil também já começou sendo assunto. Escolho falar sobre isso então.

Li muito sobre o Big Brother Brasil esta semana... críticas e mais críticas. Todos dizendo que o programa é um lixo e que não agrega nenhuma cultura aos telespectadores. Bom, eu não acho que novela, Jornal sensacionalista e cervejinha no final de semana me traga alguma cultura também não.

O que eu estou querendo dizer... BBB é um programa de entretenimento! Tá certo, não consigo ter minha atenção despertada para esse tipo de entretenimento, assim como não consigo assistir Zorra Total ou Pânico... mas isso não significa que o programa não sirva para este fim. Conheço muita gente que assiste e se diverte.

E aí, me desculpem aqueles que só criticam... mas não só de cultura a gente sobrevive. Quer programação cultural? Vá ao teatro, visite um museu... assista National Geografic... Quer uma programação light? Vamos discutir política ou filosofia. Vamos nos revoltar com a farra dos nossos políticos e repetir seus nomes nas redes sociais tanto quanto o nome Luiza, que nem podia se defender pois estava no Canadá (!!!).

Vamos tornar o BBB mais culto? Então, vamos lá... vamos discutir o fato do participante Daniel ter sido expulso. O que vocês acham? Ele transgrediu alguma regra? Qual a sua opinião, o que você pensa e sabe do assunto? Me diga você, pessoa tão culta, tão preocupada com a moral e os bons costumes e tão crítico quando o assunto é a programação da TV popular.

Espero não ser mal interpretada mas acho que as pessoas precisam deixar a hipocrisia de lado e assumirem seus papéis na sociedade.

Bom, pra finalizar, gostaria de deixar aqui um trecho de uma matéria que eu li hoje no site JusBrasil (http://amp-mg.jusbrasil.com.br/noticias/2994411/o-brasil-nao-conhece-os-limites-do-abuso-sexual). Diz assim: “As mudanças na tipificação penal de crimes sexuais feitas em 2009 no Código Penal Brasileiro colocam o país como um dos mais severos no tratamento desse tipo de violência. Mas, como mostram as reações do público diante das suspeitas de abuso sexual na edição de domingo do Big Brother Brasil , da Rede Globo, o padrão nacional ainda é o de desconhecimento da lei e dos limites do que é estupro. A lei brasileira considera estupro, por exemplo, o beijo forçado que é aplicado em uma noitada, ou constrangimentos contra os quais a vítima não possa se defender. Apesar do rigor do texto, o entendimento da maioria da população parece congelado na interpretação de que só com penetração há o crime”.

Então é isso. Vamos nos informar melhor antes de opinar e divulgar somente aquilo que realmente é importante. Ao invés de julgar o programa, vamos julgar as atitudes das pessoas e tentar fazer com que casos lamentáveis como esse (que tenho certeza, são muito comuns na nossa sociedade) sejam usados para informar, esclarecer e auxiliar aqueles que não têm acesso à ampla informação.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Final de semana na praia...

Final de semana na praia. Sol forte, calor... tudo que brasileiro ama.

A dor de cabeça começa na hora de achar uma vaga para estacionar. Isto feito, é a hora do flanelinha. Começo a pensar: “... isso é um absurdo, pois já temos que pagar IPVA, ainda temos que pagar (ainda pior, informalmente) por uma vaga na rua, que é um bem público? Não somos obrigados... mas pagamos pra não correr o risco de ter o carro danificado... cadê a fiscalização do Estado?”.

Bom, melhor deixar esses pensamentos de lado, ou vou me aborrecer. Chego na praia e tenho a impressão de que não me cabe ali. Não que existam muitos banhistas, mas todas as cadeiras e guardassóis dos quiosques estão abertos demarcando território. “Bom, achei que a praia também era pública... mas vamos lá”. Tento saber o preço para alugar um guardassol, três cadeiras... e descubro que ali existe “consumação mínima”. De novo, “aprendi na faculdade que nenhum consumidor pode ser obrigado a consumir determinado valor em produtos, pois isso configura compra casada, que é vedada no art. 39, I do CDC”...

Meus amigos começam a me olhar com aquela cara de não tem outro jeito... e mais uma vez, acho melhor relaxar e não pensar em nada que não seja sol, mar, protetor...

Bate uma fomezinha e a gente pede uma porção de camarão, que quando chega, só de olhar desanima comer. Mas nessa hora, deixo a minha irmã (nutricionista) assumir o papel da politicamente correta... Controlo minha fala mas não meus pensamentos... “O cuidado na conservação dos alimentos nas praias no verão, em virtude das altas temperaturas, é fundamental. São comuns as intoxicações alimentares, pela contaminação do gelo, da água, assim como das mãos de quem prepara. Determinados produtos, como peixes e frutos do mar, perecem com facilidade e causam constantemente problemas aos consumidores. Deve haver fiscalização, especialmente por parte das vigilâncias sanitárias, para evitar que alimentos deteriorados e adulterados sejam consumidos, mas...”

E por fim, algum atleta desavisado me acerta uma bolada na cabeça... “normalmente existe legislação municipal limitando/proibindo as práticas esportivas em determinados horários, justamente para garantir a plena utilização/segurança de todos. Deduzo que deva ser a tal providência divina querendo me fazer parar de pensar nisso tudo e aproveitar o final de semana sem me preocupar com essas bobagens, afinal, isso sempre vai existir mesmo... “ e eu o desculpo dizendo beleza, tá tranquilo!

Dentro de mim, o monstro chamado indignação enfim dorme... respiro aliviada, dou gargalhada da situação e um mergulho, já tendo a certeza de que este dia vai virar texto para o blog.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Ponto eletrônico

Mas uma vez o governo adiou a implantação do ponto eletrônico obrigatório, que estava previsto para 1º de janeiro. E com novidades, visto que agora sua implantação será de forma escalonada. Isso porque existe a alegação de que a medida tratá altos custos aos empregadores (por conta de equipamentos de controle, etc).
Mas não é exatamente sobre a forma como será implementado que eu quero falar, e sim sobre essa alegação de altos custos... e suas implicações no mundo dos fatos.
Vivemos num país que luta para que o trabalho informal não vire regra. A Justiça do Trabalho precisa sim ser mais precisa e exigente quanto ao controle da jornada, mas a meu ver essa lei mudará muito pouco ou quase nada o que acontece nos dias atuais.
Para as grandes empresas, o ponto eletrônico já é adotado faz tempo. Afinal, é impossível controlar milhares de funcionários com cartões manuais.
Agora, uma pequena empresa, que ainda está se estruturando, que luta para se manter em meio à enorme carga tributária que reza em nosso país, poderá mesmo fazer esse “auto-controle”? Isso não será mais um pressuposto para a ilegalidade?
Temo que esta seja mais uma lei sem possibilidade real de aplicação, como tantas outras que vemos diariamente, e o Princípio da Primazia da Realidade continuará sendo indispensável à justiça trabalhista...


Nota: O Princípio da Primazia da Realidade significa que, em caso de discordância entre o que ocorre na prática e o que emerge de documentos ou acordos, deve-se dar preferência ao primeiro, isto é, ao que acontece no terreno dos fatos.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

E agora, José?

Na primeira segunda-feira do ano, me falta inspiração para escrever,
me sobra nostalgia e preguiça...
Em diversos momentos do dia parei e pensei que então o ano novo enfim chegou...
E agora? 
Me lembrei do José... me lembrei do Drummond...

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

...Esqueci de você!
O ano começou.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Poesia!?!

A louca

Quando a burrice de uma pessoa se confunde com loucura,

Quando essa pessoa perde a razão e só faz bobagem,

Quando a lucidez se perde, as luzes da inteligência se apagam

E salve-se quem puder, lá vem ela.


Misto de falsidade e orgulho besta,

esconda-se onde puder!

Feito tempestade enfurecida ela venta por onde passa

e espalha sua má vontade de doida varrida.


Ser humano louco, que de razão tem tão pouco

Sua risada parece um grunhido

Sua autodefesa é o ataque.


Por que se preocupa tanto com o outro?

Por que não vive a vida e descansa um pouco?

Sua loucura torna-te burra, menina maluca!


Nota: É tanta gente surtada à minha volta que às vezes preciso fazer “graça” das situações cotidianas, ou enlouqueço junto.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

"Eduardo e Mônica" não mais...

Lendo o texto abaixo, me dei conta de que as coisas realmente precisam de um ponto final.

A maioria das pessoas irá interpretá-lo como uma história triste, sem final feliz... mas quando se tem a determinação de interromper aquilo que já não pode mais dar certo e que não nos traz a felicidade merecida, a história fica bonita. Vira ato de coragem...

2011 foi o ano de acabar com passados que ainda me assombravam. Pessoas que nunca mereceram estar na minha vida, mas que sei lá se por comodismo ou preguiça mesmo, eu não conseguia decidir esquecer totalmente.

Esse texto representa o meu momento. Momento de tirar férias e “viajar” sozinha, mas em paz...

E sim, existe vida após “Eduardo e Mônica”. Mesmo sabendo o quanto é difícil existir outro relacionamento de romance de letra de música, podemos optar por uma vida muito mais verdadeira e dessa forma encontrar a calma e a serenidade de que precisamos para seguir em frente.

É o que eu desejo sinceramente... para mim e para você.

Feliz 2012!


Nota: Texto escrito por Rosana Caiado Ferreira, em contrapartida ao filme publicitário “Eduardo e Mônica – O Filme”, lançado pela VIVO.


“Eduardo e Mônica” – Por Rosana Caiado Ferreira

Mônica já tinha ameaçado duas vezes, mas Eduardo não tinha levado a sério.

Na terceira, falou manso, às oito da manhã, e Eduardo percebeu que era pra valer.

Saiu de casa antes do almoço, com a roupa do corpo – calça jeans e camiseta de malha.

Deixou o utilitário, os gêmeos, a segunda das três parcelas da geladeira que cospe gelo e uma dúzia de fotos da última viagem rasgadas ao meio sobre os lençóis de fios de seda, enquanto Mônica penteava o cabelo diante do reflexo que o espelho do banheiro demoraria a esquecer – Mônica escovando os dentes de Eduardo, Eduardo beijando Mônica com pasta, Mônica dando gargalhadas de olhar para o teto, as crianças batendo na porta.

Embora Mônica tivesse tomado as rédeas do fim, o desejo da separação era compartilhado.

Mas Eduardo não podia imaginar que nem sua mãe, nem seu melhor amigo, nem sua mulher (ex), não fosse segurá-lo pelo braço e dizer “Não pode! Já pro castigo!”

Uma espiral no peito de Mônica doeu como se alguém tivesse aberto o ralo do amor.

Caiu um temporal que lavou os muros da casa que nunca mais será a mesma, ainda que as janelas, as panelas e os tapetes se mantenham iguais – perderam o sentido.

Sofrer uma separação é viver todas outra vez.

Mônica passou um barbante pelas pilhas de fotos separadas por temas (México, Fernando de Noronha, Jeri, aniversários, outras) e colocou dentro de uma caixa, junto com os cartões de aniversário e a aliança de ouro branco – Eduardo tirou a dele assim que soube que Mônica estava sem a dela.

Subiu a escada de alumínio e empurrou a caixa na parte de cima do armário, no fundo – esconderijo preferido do passado.

Demorou dois degraus para entender que as lembranças independem de provas e, como os gêmeos estavam na natação, se permitiu algumas lágrimas sentada ao pé da escada de alumínio, pela certeza de já ter vivido o grande amor de sua vida.

A partir de então seriam apenas histórias circunstanciais, sem a entrega a que havia se acostumado.

Eduardo explicava para Mônica coisas sobre o amor, a saudade, a família e o final feliz.

“Então, vamos namorar?”

E Mônica riu e quis saber se ele estava pedindo anestesia.

“Por favor”.

Ela preferiu experimentar a dor de uma só vez, como se fosse esse o jeito mais rápido de convalescer.

Eduardo foi para uma festa que durou quatro meses.

Tomou drogas de diversas cores, álcoois de preços variados e teve pesadelos de acordar suado – sonhava que tinha levado um caldo e não conseguia puxar ar.

A cada porre, chamava por Mônica, ora com a cabeça enterrada na mesa, ora com a boca cerrada contra o telefone celular.

Algumas vezes, com a língua enfiada em uma orelha qualquer.

E seu corpo, que já tinha tremido de paixão e ansiedade, então tremia de raiva, sentimento próprio dos apaixonados.

Quando Eduardo passou em casa para buscar alguns de seus pertences, sua barba estava cheia e as crianças, nas aulinhas de inglês.

Eduardo e Mônica fizeram no sofá da sala o sexo mais triste de que se tem notícia.

Eduardo gozou e disse “eu te amo”. Mônica chorou, mas secou depressa a lágrima em uma almofada.

E os dois se despediram com pesar, telefonaram para os amigos, tomaram comprimidos e pediram clemência ao mesmo tempo, mas não ficaram sabendo.

Eduardo abria os olhos, mas não queria se levantar.

Passava a mão no lado direito da cama para ver se Mônica estava lá.

Eduardo fantasiava que ela chegaria no meio da noite, se enfiaria debaixo dos lençóis e daria um beijo de bom-dia, que significaria que ela tinha voltado para ficar.

Mônica fingia que estava tudo bem, enquanto diluía a dor no banheiro e dava descarga.

Emagreceu cinco quilos e perdeu as roupas que Eduardo tinha lhe dado de presente – uma das tentativas silenciosas e inofensivas de se manter perto dele.

Chegava em casa, subia a escada de alumínio, abria a caixa e vestia a aliança por alguns minutos, só para matar a saudade.

Em outro canto da cidade, Eduardo via Acossados pela terceira vez na semana.

No cartório, Eduardo olhava para baixo quando Mônica, de ray-ban, perguntou: “Como está seu avô?”

Eduardo não podia responder ou começaria a chorar.

Mônica disse: “Melhor chorar agora do que na frente do escrivão”.

Eduardo não queria chegar com o nariz vermelho.

E chorar ali não significaria não chorar lá, porque sempre que achava que tinha acabado, que já tinha chorado tudo, descobria que tinha mais para chorar.

Eduardo relatou os meses anteriores em cinco minutos e transpareceu o nervosismo da hora.

Mônica se calou.

As testemunhas testemunharam.

O advogado tentou apressar o que Eduardo poderia adiar por pelo menos trinta anos, mas Mônica tratou de providenciar o quanto antes.

Arrependeu-se.

É duro se separar quando o problema nunca foi falta de amor.

O escrivão leu os termos do divórcio enquanto batucava o lápis na mesa num ritmo conhecido a todos os presentes.

Três homens na baia ao lado falaram alto sobre o pagode da noite anterior.

O advogado olhou para o relógio e pediu que conferissem os números da documentação e o mundo provou que não para só porque Eduardo e Mônica estão se divorciando.

A separação e o divórcio, opostos da paixão, pedem gerúndio: demoram meses, talvez anos.

Já a paixão não admite: quando se vê, já foi.

Eduardo encostou o corpo na parede para não desfalecer enquanto Mônica deixou uma lágrima escorrer por baixo do ray-ban, como se os dois estivessem em um velório de pessoas vivas.

Esperou-se o momento em que o escrivão, como um padre, perguntaria se alguém tinha alguma coisa contra aquele divórcio – fale agora ou cale-se para sempre.

E um carinha do cursinho do Eduardo chutaria a porta do cartório e gritaria que eles não podem se separar, ele completa ela e vice-versa, que nem feijão com arroz.

O escrivão mandaria que selassem as pazes em um abraço, que Mônica daria com a força de uma multidão.

Quando o juiz acabou de ler a sentença, Mônica perguntou onde devia assinar.

Levantou-se e assinou como quem faz o cheque que paga as compras do mês.

Eduardo tentou imitá-la, mas a assinatura saiu tremida.

As testemunhas.

O advogado.

Eduardo foi ao banheiro, onde assoou o nariz vermelho.

Eduardo queria tomar um conhaque.

Os dois entraram sozinhos no elevador e foram direto para o poço, apesar da lotação de seis pessoas.

Eduardo e Mônica se abraçaram na porta do cartório e ficaram na mesma posição por dez minutos, em pranto profundo.

Por vezes, trocaram de lado, para aliviar a dor no pescoço – que em minutos se espalharia por todo o corpo.

Eduardo disse: “Você está linda”.

Depois: “Não me arrependo de ter me casado com você.”

Mônica queria dizer “Casaria com você outra vez”, mas não saiu.

Aos amigos, Mônica disse que era o que tinha de ser feito, que essas coisas acontecem, entre outras besteiras.

Sozinha, chorou as lágrimas de uma vida inteira, molhou a gola do vestido e acabou com os lenços de papel da caixa.

Eduardo encheu a cara de garotas.

A casa anda bagunçada e as crianças andam cabisbaixas.

Do lado de fora, a placa “vende-se”.

Eduardo toma o dever e não deixa os meninos ganharem no videogame.

Mônica pega os filhos nos fins de semana e tem bruxismo às terças e quartas.

Eduardo e Mônica sabem que jamais existirá outro amor como o de Eduardo e Mônica, nem mesmo entre Eduardo e Mônica.

Nessas férias, vão viajar, mas não um com o outro.