quinta-feira, 26 de abril de 2012

Acumulando coisas

Sou uma pessoa de hábitos estranhos. Gosto de guardar meus momentos.
Se eu pudesse, teria vários armários, com várias gavetinhas, e em cada uma delas ia guardando tudo que me fosse acontecendo durante os dias, os meses e os anos.
Aí, na hora que a saudade batesse, era só eu abrir a gavetinha da saudade e lá estariam todos os bons momentos guardados.
Noutra hora, precisando me tornar mais sábia, abriria a portinha do conhecimento, e como num catálogo, experiências dos mais variados temas surgiriam.
Tudo seria perfeito... e me conhecendo tão bem, tenho certeza que este seria o cômodo da casa mais explorado.
Gosto das lembranças, gosto da minha memória, me recuso a esquecê-las guardadas em um canto qualquer do passado.
E quando remexemos esse passado, essas lembranças saem da caixinha e nos alegram...
Mas se quisermos colocá-las de volta na roda da vida, elas se perdem... perdem a beleza, a magia... e ficam velhas e empoeiradas.
Sei lá, acho que o passado está para as boas lembranças assim como o presente está para os acontecimentos imediatos... não podemos misturá-los por muito tempo sob pena de fazer morrer o encanto. E assim, depois de breve espiadinha, acho melhor fechar a gaveta e continuar guardando tudo... até outro dia.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Oneomania

Ganhei de aniversário o livro "A arte de ser leve", de Leila Ferreira. Ainda estou lendo e tendo várias idéias que quero debater melhor comigo antes de escrever aqui... mas esse trecho do livro eu achei perfeito para o mundo cada vez mais consumista em que nos encontramos:

"Se o esforço que sou obrigado a despender para ter uma coisa é maior que a satisfação que ela me traz, então não vale a pena. É tudo uma questão de medida, que varia de pessoa para pessoa. Há quem aguente um chefe que chateia o ano todo apenas para poder ir à Europa uma vez por ano. (...) Trabalhar mais horas e passar cada vez menos tempo com os amigos e a família para comprar aquele apartamento de luxo. Deixar-se envenenar por um emprego que nos traz zero de alegria para trocar de carro a cada dois anos. Perder o sono pensando nas dívidas feitas para adquirir aquilo que não era necessário, mas vai proporcionar status. Dependendo da medida de cada um, tudo isso pode aumentar substancialmente o peso que se carrega pela vida afora. em troca de algumas "coisas", corre-se o risco de vender a alma em suaves (ou nem tão suaves) prestações."

segunda-feira, 5 de março de 2012

São as águas de março...

Março começou e com ele a vontade de fazer um apanhado dos meus desejos.
Explico já, é que este mês completo 30 anos de vida. Sim, passarei para o time das balzaquianas, da mulheres interessantes e experientes e blá blá blá...
O fato é que essa idéia ainda não é tranquila no meu dia a dia, muito por conta do que a sociedade me cobra e são essas amarras sociais que me deixam cismada.
Às vezes me sinto como alguém totalmente fora do contexto. Todas as minhas decisões foram e continuam sendo contrárias às regras que parecem virar lei para a maioria.
Desde criança, nunca sonhei com casamento, vestido branco ou príncipe encantado. Sempre gostei do pouco convencional. Desde o sonho de ser cientista, que logo que fui apresentada à química abandonei, até a paixãozinha pelo garoto mais rebelde do colégio.
Não penso em filhos por enquanto. Quero ter a opção, mas para o futuro. Só que faço 30 este ano e as pessoas já me cobram  como se o futuro estivesse tão presente a ponto de dizerem um monte de besteira (tá bom, talvez nem tão besteira). Procuro, procuro e não consigo achar o tal do instinto maternal... isso também acho que vem da infância, quando eu inventava de fazer as bonecas ficarem doentes pra acabar com a brincadeira quando me cansava, o que sempre acontecia uns 30 minutos após a casinha das bonecas ficar pronta.
Também não dirijo. Não gosto, tenho medo, não curto. Isso me faz certa falta, mas nada que não possa ser superado. Fiz uma faculdade da qual descobri só gostar da teoria. Na prática, tenho pavor do direito e dos seus trâmites. Prefiro um bom livro a um bom filme, ou mesmo um programa de TV. Aliás, TV pra mim não é diversão, é falta do que fazer. E sendo assim, não ligo a mínima se o meu aparelho é mega ultrapassado.
E todas essas minhas “manias” são tidas como defeitos graves por todos à minha volta. Críticas e mais críticas por todos os lados.
Não gosto de música sertaneja, não gosto de pagode, não gosto de funk.
Será que sou uma espécie de ET em meio ao mundo globalizado das pessoas felizes, dos casais convencionais com seus bebês chorões e seus programinhas enfadonhos domingo no parque?
Já já começo mais uma etapa. Gostaria de manter a minha autenticidade e não sucumbir à maldita pressão social, mas alguém me convida para um casamento e eu já logo penso que é chato ir nas festas de casamento sem um par... porque “as pessoas” comentam.
Queria descobrir um mundo onde as minhas vontades fossem respeitadas, onde eu fosse forte o suficiente para mostrar que eu posso sim, ser feliz do jeito que eu quiser porque não adianta, sou teimosa demais para aceitar qualquer coisa diferente disso.
Se não posso ter o que eu quero - o que EU julgo melhor pra mim, prefiro não ter.
Simples né?

domingo, 26 de fevereiro de 2012

O Sonho, Clarice Lispector

Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida e nela
só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades
que aparecem em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas
que passam por suas vidas.


Hoje não foi um bom dia... definitivamente.
Mais uma vez a realidade sobrepõe "o sonho".
Não sei mesmo por quanto tempo o sentimento vai se manter vivo.
Cada dia morre um pedacinho do sonho, sufocado pelas imagens do dia a dia...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Pinheirinho

O que normalmente se diz é que brasileiro tem memória curta para casos sociais relevantes.
Eu poderia então justificar o atraso em comentar o tema como um teste à memória dos meus raros prováveis leitores, mas essa não é bem a verdade. Foi preguiça mesmo...
E nesse tempo de preguiça, aproveitei para ler muita coisa, ouvir comentários contrários e uns poucos a favor, pesei todos os argumentos e agora sim, tenho uma opinião a respeito do ocorrido.

Bem diferente do que aprendi sobre o Direito, os fatos ocorridos em São José dos Campos – município com um dos maiores orçamentos “per capita” do Brasil, foram justificados em nome da lei, como se pudéssemos admitir o direito como instrumento para o cometimento de atrocidades.

Vamos aos fatos:
Um terreno foi invadido não permitindo a posse tranquila ao seu titular e portanto, precisa ser desocupado. Sendo assim, as ações de desocupação foram justificadas com base no direito de propriedade.

Parece pacífico, mas se analisarmos com um pouco mais de cuidado, encontraremos previsto constitucionalmente que o direito de propriedade deve atender à sua função social (art.5º, XXIII da CF). Sem esse pressuposto nenhum direito de propriedade poderia ser exercido. Além disso a Constituição Federal ainda garante, a todos os cidadãos, como preceito fundamental, o direito à moradia. E, somente analisando isso, já podemos deduzir que a ocupação, para fins de moradia, de uma terra improdutiva e abandonada, sem uma finalidade social, não é mera invasão. Diante de uma ocupação desta natureza, compete ao proprietário, demonstrar a posse e principalmente, provar a função social desta propriedade. Do contrário, a ocupação pode ser vista como uma desapropriação indireta do imóvel, agindo o particular em substituição ao Estado, que se mostra inerte em duas fases: na não realização de políticas públicas efetivas de construção de moradias dignas para todos e no controle exigente das finalidades sociais das propriedades privadas.

Não havendo essa preocupação do Estado, entendo que o ocorrido não foi mera invasão, mas sim, um ato desorganizado para extrair do Estado a garantia dos preceitos constitucionais do direito à moradia e da função social da propriedade. Diferente do que tentaram justificar, não se tratou de ato de pessoas espertas que quiseram se aproveitar da situação, passando à frente de milhões de brasileiros que também não têm onde morar, pois, como bem disse Ricardo Boechat (http://www.ovale.com.br/ricardo-boechat-exp-e-sua-opini-o-sobre-o-pinheirinho-e-n-o-poupa-ninguem-1.210998) ao comentar o assunto, nenhum esperto tem como projeto de vida morar em um terreno ocupado, em precárias condições habitacionais. Os espertos estão em outros lugares, bem mais confortáveis...

Claro, num ambiente de extrema pobreza, também havia usuário de droga e objetos frutos de furto, mas isso em nada justifica a tamanha crueldade com que foram expulsos. Se formos realistas, drogas podem ser encontradas em qualquer tipo de sociedade e os objetos furtados não representam, por si, identificação de autoria de crime, e mesmo que fosse, a pena aplicada para furto não é a perda do direito à moradia.

Essas pessoas são apenas vítimas da histórica péssima distribuição de renda que reina em nosso país.

O ato de reintegração não poderia jamais ter sido feito de forma a atingir a integridade física das pessoas, mesmo se tratadas juridicamente como invasoras. E mesmo que, justificado pela resistência, houvesse a necessidade de expulsá-las de forma abrupta e violenta como o fizeram, por que fazer isso num domingo à noite, fazendo com que estas deixassem seus documentos e pertences para trás? Fazendo como que fossem separados, numa espécie de “triagem”, sendo obrigados a utilizarem pulseiras com cores diferentes nos abrigos, para que pudessem ser identificadas como moradoras deste abrigo?

Tudo isso para entregar o terreno ao seu proprietário? Uma massa falida?...

Os moradores do Pinheirinhho foram presos sem processo, já que ficaram várias horas impossibilitados de sair do assentamento, foram marcados como se estivessem em um campo de concentração, foram desalojados e conduzidos coercitivamente, a um local inabitável, sem qualquer condição de higiene. Ou seja, foram profundamente agredidos em sua dignidade. E onde estava o Princípio Fundamental da Dignidade da Pessoa Humana??? -Art. 1º, III da CF. Além deste, outros princípios fundamentais foram desrespeitados, como o art.3º e 4º, II da CF, que tratam da construção da sociedade livre, justa e solidária e da prevalência dos direitos humanos.

O caso Pinheirinho foi uma verdadeira barbárie e a nossa sociedade precisa encontrar uma solução que traga, instantaneamente, a credibilidade na eficácia dos preceitos fundamentais da Constituição Federal.

Caso isto não aconteça, corremos o risco de ver ações como estas legitimadas por intermédio de um Direito que tolera atrocidades, como se os autores não fossem responsáveis pelos seus atos, apresentando-se apenas como cumpridores da lei, sem que estas sejam aplicadas de forma consciente e humana. Seremos como escravos dominados pelos seus senhores, que utilizam a legislação vigente conforme seus interesses .

sábado, 28 de janeiro de 2012

Um janeiro quase igual aos outros...

Mal começou, e 2012 já disse a que veio. Não fosse somente a chuva para nos atormentar, os desastres naturais... convivemos ainda neste primeiro mês do ano com um tragédia de proporções e causas ainda inexplicáveis (prefiro pensar assim....).


Sexta-feira pela manhã, ainda abalada pelas notícias da tragédia no centro do Rio (sim, essas notícias me abalam sinceramente), em meio a matérias sensacionalistas de jornais que se dizem preocupados com a informação mas que na verdade não param de especular e espezinhar a dor alheia em busca de audiência, tive acesso ao texto abaixo... e achei de uma inteligência ímpar, e acima de tudo... de muita sensibilidade.


Pois bem, nesta semana em que as idéias me fogem, acho justo divulgá-lo neste espaço como forma de tornar mais abrangente sua temática quase poética, embora triste.


"Peço desculpas se ocupo vosso tempo e o dos leitores com divagações deste provecto e solitário carioca, que vive em sua vetusta morada aos pés da Rua do Jogo da Bola, no castigado centro do Rio de Janeiro.

Contemplando as mazelas que afligem esta urbe moderna, fico saudoso do tempo em que nossos avós, os sinhozinhos e as nhanhãs de outrora, passeavam despreocupados, com seus tílburis, pelas ruas da Corte, sem jamais imaginar que seus descendentes sofreriam com bueiros a explodir, arranha-céus a desmoronar e helicópteros a perturbar seu sono.

Quando falo nisso, meus sobrinhos dizem que estou a romantizar o passado, que a cidade antiga, com suas vielas infectas e suas epidemias de febre amarela, estava longe de ser um paraíso, mas essa nostalgia do que não vivi insiste em habitar minha cachola, talvez perturbada pelo incessante funk que meu jovem vizinho insiste em ensinar para todos os moradores do Morro da Conceição.

De uns tempos para cá, dei para imaginar que as tragédias que se abatem sobre esta cidade são vinganças que o passado fica a engendrar, em represália aos maus-tratos que o progresso causou à memória desta terra.

Assim, passei a ver a tragédia do Bateau Mouche como uma resposta do Deus Netuno aos muitos aterros que avançaram sobre seus domínios. A explosão de um prédio na Praça Tiradentes, como uma retaliação arquitetada por Clio, a musa da História, diante de um contrassenso : como é que a cidade ergue, no meio de uma praça dedicada ao Mártir da Inconfidência, uma estátua de Dom Pedro Primeiro, um neto daquela desassisada rainha que foi a algoz do nosso herói?

Tudo isso me vem à baila quando penso na tragédia mais recente da cidade, que pôs abaixo três prédios da Rua Treze de Maio. A Treze de Maio, que já se chamou Rua da Guarda Velha, porque ali o velho Gomes Freire havia estabelecido um corpo de guarda para conter a algazarra dos escravos que vinham buscar água no Chafariz da Carioca... A Treze de Maio, que já abrigou o Teatro Lírico, onde brilharam Caruso, Sarah Bernhardt e Duse, e onde Toscanini pela primeira vez regeu uma orquestra... A Treze de Maio, que deveria ser tão cara para os jornalistas, pois ali ficava o prédio neogótico da Imprensa Nacional, ali Irineu Marinho fundou O Globo, e Chateaubriand instalou num certo momento seu império.

E não deixa de ser irônico o fato de que um dos edifícios destruídos agora fica na pequena Rua Manuel de Carvalho, cujo nome homenageia um dos mestres da engenharia brasileira, auxiliar de Paulo de Frontin na epopeia de construção da Avenida Central.

Recuo mais no tempo e me recordo que, ocupando o leito da atual Treze de Maio, havia uma lagoa, a de Santo Antônio. E, voltando à conspiratória teoria da Vingança da História, fico a imaginar se não haveria nessa tragédia uma revanche tardia dos sapos da antiga lagoa. Afinal, os sapos, barbudos ou não, podem causar muitos estragos..."

(Por Tertuliano Vahia Monteiro de Sá e Benevides)



Publicado no site www.migalhas.com.br (edição nº2803).