Lendo o texto abaixo, me dei conta de que as coisas realmente
precisam de um ponto final.
A maioria das pessoas irá interpretá-lo como uma história
triste, sem final feliz... mas quando se tem a determinação de interromper
aquilo que já não pode mais dar certo e que não nos traz a felicidade
merecida, a história fica bonita. Vira ato de coragem...
2011 foi o ano de acabar com passados que ainda me
assombravam. Pessoas que nunca mereceram estar na minha vida, mas que sei lá se
por comodismo ou preguiça mesmo, eu não conseguia decidir esquecer
totalmente.
Esse texto representa o meu momento. Momento de tirar férias
e “viajar” sozinha, mas em paz...
E sim, existe vida após “Eduardo e Mônica”. Mesmo sabendo o
quanto é difícil existir outro relacionamento de romance de letra de música,
podemos optar por uma vida muito mais verdadeira e dessa forma encontrar a calma
e a serenidade de que precisamos para seguir em frente.
É o que eu desejo sinceramente... para mim e para você.
Feliz 2012!
Nota: Texto escrito por Rosana Caiado Ferreira, em
contrapartida ao filme publicitário “Eduardo e Mônica – O Filme”, lançado pela
VIVO.
“Eduardo e Mônica”
– Por Rosana Caiado Ferreira
Mônica já tinha
ameaçado duas vezes, mas Eduardo não tinha levado a sério.
Na terceira, falou
manso, às oito da manhã, e Eduardo percebeu que era pra valer.
Saiu de casa antes
do almoço, com a roupa do corpo – calça jeans e camiseta de malha.
Deixou o utilitário,
os gêmeos, a segunda das três parcelas da geladeira que cospe gelo e uma dúzia
de fotos da última viagem rasgadas ao meio sobre os lençóis de fios de seda,
enquanto Mônica penteava o cabelo diante do reflexo que o espelho do banheiro
demoraria a esquecer – Mônica escovando os dentes de Eduardo, Eduardo beijando
Mônica com pasta, Mônica dando gargalhadas de olhar para o teto, as crianças
batendo na porta.
Embora Mônica
tivesse tomado as rédeas do fim, o desejo da separação era
compartilhado.
Mas Eduardo não
podia imaginar que nem sua mãe, nem seu melhor amigo, nem sua mulher (ex), não
fosse segurá-lo pelo braço e dizer “Não pode! Já pro castigo!”
Uma espiral no peito
de Mônica doeu como
se alguém tivesse aberto o ralo do amor.
Caiu um temporal que
lavou os muros da casa que nunca mais será a mesma, ainda que as janelas, as
panelas e os tapetes se mantenham iguais – perderam o sentido.
Sofrer uma separação
é viver todas outra vez.
Mônica passou um
barbante pelas pilhas de fotos separadas por temas (México, Fernando de Noronha,
Jeri, aniversários, outras) e colocou dentro de uma
caixa, junto com os cartões de aniversário e a aliança de ouro branco – Eduardo
tirou a dele assim que soube que Mônica estava sem a dela.
Subiu a escada de
alumínio e empurrou a caixa na parte de cima do armário, no fundo – esconderijo
preferido do passado.
Demorou dois degraus
para entender que as lembranças independem de provas e, como os gêmeos estavam
na natação, se permitiu algumas lágrimas sentada ao pé da escada de alumínio,
pela certeza de já ter vivido o grande amor de sua vida.
A partir de então
seriam apenas histórias circunstanciais, sem a entrega a que havia se
acostumado.
Eduardo explicava
para Mônica coisas sobre o amor, a saudade, a família e o final
feliz.
“Então, vamos
namorar?”
E Mônica riu e quis
saber se ele estava pedindo anestesia.
“Por
favor”.
Ela preferiu
experimentar a dor de uma só vez, como se fosse esse o jeito mais rápido de
convalescer.
Eduardo foi para uma
festa que durou quatro meses.
Tomou drogas de
diversas cores, álcoois de preços variados e teve
pesadelos de acordar suado – sonhava que tinha levado um caldo e não conseguia
puxar ar.
A cada porre,
chamava por Mônica, ora com a cabeça enterrada na mesa, ora com a boca cerrada
contra o telefone celular.
Algumas vezes, com a
língua enfiada em uma orelha qualquer.
E seu corpo, que já
tinha tremido de paixão e ansiedade, então tremia de raiva, sentimento próprio
dos apaixonados.
Quando Eduardo
passou em casa para buscar alguns de seus pertences, sua barba estava cheia e as
crianças, nas aulinhas de inglês.
Eduardo e Mônica
fizeram no sofá da sala o sexo mais triste de que se tem notícia.
Eduardo gozou e
disse “eu te amo”. Mônica chorou, mas secou depressa a lágrima em uma
almofada.
E os dois se
despediram com pesar, telefonaram para os amigos, tomaram comprimidos e pediram
clemência ao mesmo tempo, mas não ficaram sabendo.
Eduardo abria os
olhos, mas não queria se levantar.
Passava a mão no
lado direito da cama para ver se Mônica estava lá.
Eduardo fantasiava
que ela chegaria no meio da noite, se enfiaria debaixo dos lençóis e daria um
beijo de bom-dia, que significaria que ela tinha voltado para ficar.
Mônica fingia que
estava tudo bem, enquanto diluía a dor no banheiro e dava descarga.
Emagreceu cinco
quilos e perdeu as roupas que Eduardo tinha lhe dado de presente – uma das
tentativas silenciosas e inofensivas de se manter perto dele.
Chegava em casa,
subia a escada de alumínio, abria a caixa e vestia a aliança por alguns minutos,
só para matar a saudade.
Em outro canto da
cidade, Eduardo via Acossados pela terceira vez na semana.
No cartório, Eduardo
olhava para baixo quando Mônica, de ray-ban, perguntou: “Como está seu
avô?”
Eduardo não podia
responder ou começaria a chorar.
Mônica disse:
“Melhor chorar agora do que na frente do escrivão”.
Eduardo não queria
chegar com o nariz vermelho.
E chorar ali não
significaria não chorar lá, porque sempre que achava que tinha acabado, que já
tinha chorado tudo, descobria que tinha mais para chorar.
Eduardo relatou os
meses anteriores em cinco minutos e transpareceu o nervosismo da
hora.
Mônica se
calou.
As testemunhas
testemunharam.
O advogado tentou
apressar o que Eduardo poderia adiar por pelo menos trinta anos, mas Mônica
tratou de providenciar o quanto antes.
Arrependeu-se.
É duro se separar
quando o problema nunca foi falta de amor.
O escrivão leu os
termos do divórcio enquanto batucava o lápis na mesa num ritmo conhecido a todos
os presentes.
Três homens na baia
ao lado falaram alto sobre o pagode da noite anterior.
O advogado olhou
para o relógio e pediu que conferissem os números da documentação e o mundo
provou que não para só porque Eduardo e Mônica estão se divorciando.
A separação e o
divórcio, opostos da paixão, pedem gerúndio: demoram meses, talvez anos.
Já a paixão não
admite: quando se vê, já foi.
Eduardo encostou o
corpo na parede para não desfalecer enquanto Mônica deixou uma lágrima escorrer
por baixo do ray-ban, como se os dois estivessem em um velório de pessoas
vivas.
Esperou-se o momento
em que o escrivão, como um padre, perguntaria se alguém tinha alguma coisa
contra aquele divórcio – fale agora ou cale-se para sempre.
E um carinha do
cursinho do Eduardo chutaria a porta do cartório e gritaria que eles não podem
se separar, ele completa ela e vice-versa, que nem feijão com arroz.
O escrivão mandaria
que selassem as pazes em um abraço, que Mônica daria com a força de uma
multidão.
Quando o juiz acabou
de ler a sentença, Mônica perguntou onde devia assinar.
Levantou-se e
assinou como quem faz o cheque que paga as compras do mês.
Eduardo tentou
imitá-la, mas a assinatura saiu tremida.
As
testemunhas.
O
advogado.
Eduardo foi ao
banheiro, onde assoou o nariz vermelho.
Eduardo queria tomar
um conhaque.
Os dois entraram
sozinhos no elevador e foram direto para o poço, apesar da lotação de seis
pessoas.
Eduardo e Mônica se
abraçaram na porta do cartório e ficaram na mesma posição por dez minutos, em
pranto profundo.
Por vezes, trocaram
de lado, para aliviar a dor no pescoço – que em minutos se espalharia por todo o
corpo.
Eduardo disse: “Você
está linda”.
Depois: “Não me
arrependo de ter me casado com você.”
Mônica queria dizer
“Casaria com você outra vez”, mas não saiu.
Aos amigos, Mônica
disse que era o que tinha de ser feito, que essas coisas acontecem, entre outras
besteiras.
Sozinha, chorou as
lágrimas de uma vida inteira, molhou a gola do vestido e acabou com os lenços de
papel da caixa.
Eduardo encheu a
cara de garotas.
A casa anda
bagunçada e as crianças andam cabisbaixas.
Do lado de fora, a
placa “vende-se”.
Eduardo toma o dever
e não deixa os meninos ganharem no videogame.
Mônica pega os
filhos nos fins de semana e tem bruxismo às terças e quartas.
Eduardo e Mônica
sabem que jamais existirá outro amor como o de Eduardo e Mônica, nem mesmo entre
Eduardo e Mônica.
Nessas férias, vão
viajar, mas não um com o outro.