Mal começou, e 2012 já disse a que veio. Não fosse somente a chuva para nos atormentar, os desastres naturais... convivemos ainda neste primeiro mês do ano com um tragédia de proporções e causas ainda inexplicáveis (prefiro pensar assim....).
Sexta-feira pela manhã, ainda abalada pelas notícias da tragédia no centro do Rio (sim, essas notícias me abalam sinceramente), em meio a matérias sensacionalistas de jornais que se dizem preocupados com a informação mas que na verdade não param de especular e espezinhar a dor alheia em busca de audiência, tive acesso ao texto abaixo... e achei de uma inteligência ímpar, e acima de tudo... de muita sensibilidade.
Pois bem, nesta semana em que as idéias me fogem, acho justo divulgá-lo neste espaço como forma de tornar mais abrangente sua temática quase poética, embora triste.
"Peço desculpas se ocupo vosso tempo e o
dos leitores com divagações deste provecto e solitário carioca, que vive em sua
vetusta morada aos pés da Rua do Jogo da Bola, no castigado centro do Rio de
Janeiro.
Contemplando as mazelas que afligem esta
urbe moderna, fico saudoso do tempo em que nossos avós, os sinhozinhos e as
nhanhãs de outrora, passeavam despreocupados, com seus tílburis, pelas ruas da
Corte, sem jamais imaginar que seus descendentes sofreriam com bueiros a
explodir, arranha-céus a desmoronar e helicópteros a perturbar seu
sono.
Quando falo nisso, meus sobrinhos dizem
que estou a romantizar o passado, que a cidade antiga, com suas vielas infectas
e suas epidemias de febre amarela, estava longe de ser um paraíso, mas essa
nostalgia do que não vivi insiste em habitar minha cachola, talvez perturbada
pelo incessante funk que meu jovem vizinho insiste em ensinar para todos os
moradores do Morro da Conceição.
De uns tempos para cá, dei para imaginar
que as tragédias que se abatem sobre esta cidade são vinganças que o passado
fica a engendrar, em represália aos maus-tratos que o progresso causou à memória
desta terra.
Assim, passei a ver a tragédia do Bateau
Mouche como uma resposta do Deus Netuno aos muitos aterros que avançaram sobre
seus domínios. A explosão de um prédio na Praça Tiradentes, como uma retaliação
arquitetada por Clio, a musa da História, diante de um contrassenso : como é que
a cidade ergue, no meio de uma praça dedicada ao Mártir da Inconfidência, uma
estátua de Dom Pedro Primeiro, um neto daquela desassisada rainha que foi a
algoz do nosso herói?
Tudo isso me vem à baila quando penso na
tragédia mais recente da cidade, que pôs abaixo três prédios da Rua Treze de
Maio. A Treze de Maio, que já se chamou Rua da Guarda Velha, porque ali o velho
Gomes Freire havia estabelecido um corpo de guarda para conter a algazarra dos
escravos que vinham buscar água no Chafariz da Carioca... A Treze de Maio, que
já abrigou o Teatro Lírico, onde brilharam Caruso, Sarah Bernhardt e Duse, e
onde Toscanini pela primeira vez regeu uma orquestra... A Treze de Maio, que
deveria ser tão cara para os jornalistas, pois ali ficava o prédio neogótico da
Imprensa Nacional, ali Irineu Marinho fundou O Globo, e Chateaubriand instalou
num certo momento seu império.
E não deixa de ser irônico o fato de que
um dos edifícios destruídos agora fica na pequena Rua Manuel de Carvalho, cujo
nome homenageia um dos mestres da engenharia brasileira, auxiliar de Paulo de
Frontin na epopeia de construção da Avenida Central.
Recuo mais no tempo e me recordo que,
ocupando o leito da atual Treze de Maio, havia uma lagoa, a de Santo Antônio. E,
voltando à conspiratória teoria da Vingança da História, fico a imaginar se não
haveria nessa tragédia uma revanche tardia dos sapos da antiga lagoa. Afinal, os
sapos, barbudos ou não, podem causar muitos estragos..."
(Por Tertuliano Vahia Monteiro de Sá
e Benevides)
Publicado no site www.migalhas.com.br (edição nº2803).
sábado, 28 de janeiro de 2012
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Entretenimento X Cultura
Essa semana foi difícil chegar até aqui, sentar e
escrever... Escrever sobre o quê? Tantas bobagens nos veículos de comunicação,
assuntos sérios pouco comentados e a garota Luiza virando manchete o tempo
todo.
Big Brother Brasil também já começou sendo assunto. Escolho
falar sobre isso então.
Li muito sobre o Big Brother Brasil esta semana... críticas
e mais críticas. Todos dizendo que o programa é um lixo e que não agrega
nenhuma cultura aos telespectadores. Bom, eu não acho que novela, Jornal
sensacionalista e cervejinha no final de semana me traga alguma cultura também
não.
O que eu estou querendo dizer... BBB é um programa de
entretenimento! Tá certo, não consigo ter minha atenção despertada para esse
tipo de entretenimento, assim como não consigo assistir Zorra Total ou
Pânico... mas isso não significa que o programa não sirva para este fim.
Conheço muita gente que assiste e se diverte.
E aí, me desculpem aqueles que só criticam... mas não só de
cultura a gente sobrevive. Quer programação cultural? Vá ao teatro, visite um
museu... assista National Geografic... Quer uma programação light? Vamos
discutir política ou filosofia. Vamos nos revoltar com a farra dos nossos
políticos e repetir seus nomes nas redes sociais tanto quanto o nome Luiza, que
nem podia se defender pois estava no Canadá (!!!).
Vamos tornar o BBB mais culto? Então, vamos lá... vamos
discutir o fato do participante Daniel ter sido expulso. O que vocês acham? Ele
transgrediu alguma regra? Qual a sua opinião, o que você pensa e sabe do
assunto? Me diga você, pessoa tão culta, tão preocupada com a moral e os bons
costumes e tão crítico quando o assunto é a programação da TV popular.
Espero não ser mal interpretada mas acho que as pessoas
precisam deixar a hipocrisia de lado e assumirem seus papéis na sociedade.
Bom, pra finalizar, gostaria de deixar aqui um trecho de uma
matéria que eu li hoje no site JusBrasil (http://amp-mg.jusbrasil.com.br/noticias/2994411/o-brasil-nao-conhece-os-limites-do-abuso-sexual).
Diz assim: “As mudanças na tipificação penal de crimes sexuais feitas em 2009
no Código Penal Brasileiro colocam o país como um dos mais severos no
tratamento desse tipo de violência. Mas, como mostram as reações do público
diante das suspeitas de abuso sexual na edição de domingo do Big Brother Brasil , da Rede Globo, o
padrão nacional ainda é o de desconhecimento da lei e dos limites do que é
estupro. A lei brasileira considera estupro, por exemplo, o beijo forçado que é
aplicado em uma noitada, ou constrangimentos contra os quais a vítima não possa
se defender. Apesar do rigor do texto, o entendimento da maioria da população
parece congelado na interpretação de que só com penetração há o crime”.
Então é isso. Vamos nos informar melhor antes de opinar e divulgar
somente aquilo que realmente é importante. Ao invés de julgar o programa, vamos
julgar as atitudes das pessoas e tentar fazer com que casos lamentáveis como
esse (que tenho certeza, são muito comuns na nossa sociedade) sejam usados para
informar, esclarecer e auxiliar aqueles que não têm acesso à ampla informação.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Final de semana na praia...
Final de semana na praia. Sol forte, calor... tudo que
brasileiro ama.
A dor de cabeça começa na hora de achar uma vaga para
estacionar. Isto feito, é a hora do flanelinha. Começo a pensar: “... isso é um
absurdo, pois já temos que pagar IPVA, ainda temos que pagar (ainda pior,
informalmente) por uma vaga na rua, que é um bem público? Não somos obrigados...
mas pagamos pra não correr o risco de ter o carro danificado... cadê a
fiscalização do Estado?”.
Bom, melhor deixar esses pensamentos de lado, ou vou me
aborrecer. Chego na praia e tenho a impressão de que não me cabe ali. Não que
existam muitos banhistas, mas todas as cadeiras e guardassóis dos quiosques estão abertos demarcando
território. “Bom, achei que a praia também era pública... mas vamos lá”.
Tento saber o preço para alugar um guardassol, três
cadeiras... e descubro que ali existe “consumação mínima”. De novo, “aprendi na
faculdade que nenhum consumidor pode ser obrigado a consumir determinado valor
em produtos, pois isso configura compra casada, que é vedada no art. 39,
I do CDC”...
Meus amigos começam a me olhar com aquela cara de não tem
outro jeito... e mais uma vez, acho melhor relaxar e não pensar em nada que
não seja sol, mar, protetor...
Bate uma fomezinha e a gente pede uma porção de camarão, que
quando chega, só de olhar desanima comer. Mas nessa hora, deixo a minha irmã
(nutricionista) assumir o papel da politicamente correta... Controlo
minha fala mas não meus pensamentos... “O cuidado na conservação dos
alimentos nas praias no verão, em virtude das altas temperaturas, é fundamental.
São comuns as intoxicações alimentares, pela contaminação do gelo, da água,
assim como das mãos de quem prepara. Determinados produtos, como peixes e frutos
do mar, perecem com facilidade e causam constantemente problemas aos
consumidores. Deve haver fiscalização, especialmente por parte das vigilâncias
sanitárias, para evitar que alimentos deteriorados e adulterados sejam
consumidos, mas...”
E por fim, algum atleta desavisado me acerta uma
bolada na cabeça... “normalmente existe legislação municipal limitando/proibindo
as práticas esportivas em determinados horários, justamente para garantir a
plena utilização/segurança de todos. Deduzo que deva ser a tal providência
divina querendo me fazer parar de pensar nisso tudo e aproveitar o final de
semana sem me preocupar com essas bobagens, afinal, isso sempre vai existir
mesmo... “ e eu o desculpo dizendo beleza, tá tranquilo!
Dentro de mim, o monstro chamado indignação enfim
dorme... respiro aliviada, dou gargalhada da situação e um mergulho, já tendo a
certeza de que este dia vai virar texto para o blog.
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Ponto eletrônico
Mas
uma vez o governo adiou a implantação do ponto eletrônico obrigatório, que
estava previsto para 1º de janeiro. E com novidades, visto que agora sua
implantação será de forma escalonada. Isso porque existe a alegação de que a
medida tratá altos custos aos empregadores (por conta
de equipamentos de controle, etc).
Mas
não é exatamente sobre a forma como será implementado que eu quero falar, e sim
sobre essa alegação de altos custos... e suas implicações no mundo dos fatos.
Vivemos
num país que luta para que o trabalho informal não vire regra. A Justiça do
Trabalho precisa sim ser mais precisa e exigente quanto ao controle da jornada,
mas a meu ver essa lei mudará muito pouco ou quase nada o que acontece nos dias
atuais.
Para
as grandes empresas, o ponto eletrônico já é adotado faz tempo. Afinal, é
impossível controlar milhares de funcionários com cartões manuais.
Agora,
uma pequena empresa, que ainda está se estruturando, que luta para se manter em
meio à enorme carga tributária que reza em nosso país, poderá mesmo fazer esse
“auto-controle”? Isso não será mais um pressuposto para a
ilegalidade?
Temo
que esta seja mais uma lei sem possibilidade real de aplicação, como tantas
outras que vemos diariamente, e o Princípio da Primazia da Realidade
continuará sendo indispensável à justiça trabalhista...
Nota:
O Princípio da Primazia da Realidade significa que, em caso de
discordância entre o que ocorre na prática e o que emerge de documentos ou
acordos, deve-se dar preferência ao primeiro, isto é, ao que acontece no terreno
dos fatos.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
E agora, José?
Na primeira segunda-feira do ano, me falta inspiração para escrever,
me sobra nostalgia e preguiça...
Em diversos momentos do dia parei e pensei que então o ano novo enfim chegou...
E agora?
Me lembrei do José... me lembrei do Drummond...
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
...Esqueci de você!
O ano começou.
me sobra nostalgia e preguiça...
Em diversos momentos do dia parei e pensei que então o ano novo enfim chegou...
E agora?
Me lembrei do José... me lembrei do Drummond...
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
...Esqueci de você!
O ano começou.
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